Carioca de 1978 completa 40 anos e rivais de Fla e Vasco revivem final

Título rubro-negro faz aniversário nesta segunda-feira; LANCE! buscou dois personagens marcantes de cada equipe para que analisassem o gol histórico de Rondinelli

este 3 de dezembro de 2018, um dos títulos de maior importância na história do Flamengo “comemora” mais um aniversário. Não, não é a Libertadores ou o Mundial – mas é a conquista que abriu portas para esses troféus e a chamada “geração Zico”: o Campeonato Carioca de 1978.

Com o famoso gol de Rondinelli, “Deus da Raça”, o Rubro-Negro conquistou o segundo turno da disputa (Taça Rio de Janeiro, sem ligação com a atual Taça Rio, esta criada em 1982) e garantiu o troféu do estadual daquele ano, o 18º de sua história. Há 40 anos, o regulamento era bem mais simples: quem vencesse os dois turnos do Carioca era campeão automático, e o Flamengo já tinha vencido a Taça Guanabara.

Na época, o panorama era oposto nos tradicionais rivais cariocas. De um lado, o clube da Colina chegava embalado à final do segundo turno, por uma chance de avançar à decisão geral e levar o bicampeonato. Do outro, um Rubro-Negro em crise: uma seca histórica de gols (cinco jogos sem marcar sobre o Vasco, a maior sequência rubro-negra sem gols no clássico até hoje) e um vice-campeonato para o rival, além de um timaço no papel que não conseguia levantar troféus.

Para relembrar aquela decisão, o LANCE! buscou dois personagens de cada lado para que eles compartilhassem suas principais lembranças do confronto no Maracanã, que teve 120.433 pessoas lotando as arquibancadas. Do lado do Flamengo, Rondinelli e Adílio. Do lado do Vasco, Abel e Gaúcho. As mesmas perguntas foram feitas aos quatro, em uma tentativa de reviver ao máximo o clima dentro dos gramados. Confira abaixo!

Rondinelli, zagueiro e autor do gol do Flamengo
– Sobre o lance do golO Dinamite fala que não, mas ele me abandona do meio do caminho. São detalhes. Tenho consciência de que dei um vacilo uns três, quatro minutos antes da jogada com ele. O Carpeggiani, que era o capitão, falou algo nesse sentido: “Como é que você vai subir pro lance se você deu uma vacilada? Fica lá que você não vai resolver nada na frente”. Eu pensei “estou há dois tempos tentando evitar gol, quero ajudar a sair daqui com esse time campeão. Vou desobedecer!”. Eu estava com 23 anos, tentando me firmar como titular. Se eu posso ir, eu vou, pela minha intuição. E o Zico sabia da minha intuição, não à toa eu digo que ele não cruza a bola, ele alça. Ele sabia. Com ele alçando a bola, tive toda a possibilidade de cabecear firme. Nesse meio tempo, o Roberto me larga, eu vou em zigue-zague fugindo e pego ela justamente onde Zico pôs. Fui tomado por essa luz, entro em êxtase. Cara, o mundo desabou de alegria.

A ficha (da importância do gol) caiu na hora sim, sabe por quê? Quando 1977 acabou, a gente fez uma reunião para olhar a história de uma maneira diferente a partir do ano seguinte. Todo mundo estava engolindo uma série de adversidades, a gente chegava na final e não levava.

Esse filme hoje passa pela minha cabeça. A partir daquele momento, estava confirmada uma geração que o Flamengo fez em casa. O banco todo foi correr na minha direção no pau da bandeira, dei uma cambalhota. A minha vontade ali era pular na geral. Faltavam dois ou três minutos para o jogo acabar, já estava praticamente encerrado. Aquela nação era tão abençoada que o gol aconteceu debaixo dela. Não poderia ter sido melhor.

– Qual time era melhor: Flamengo ou Vasco?
 
O time do Vasco da Gama nesta época era superior pela belíssima equipe, jogadores de alto nível. Era bem superior ao nosso e merecedor de todos os elogios pela crônica esportiva.

Zagueiro marcou gol do título do Flamengo (Foto: Reprodução)

Adílio, meia do Flamengo
– Sobre o lance do golÀs vezes era eu quem cobrava o escanteio, mas ali no momento, quem estivesse perto cobraria. Aí é que veio o impulso: Tchê, um fotógrafo amigo nosso, pegou a bola e jogou para o Zico. Quando ele bateu o escanteio, a bola viajou. Fiquei observando, de olho no rebote. O Rondinelli veio com muita firmeza e fez aquele golaço!

– Qual time era melhor: Flamengo ou Vasco? Rondinelli acha que era o rival… Claro que não concordo! Nossos jogadores era mais habilidosos e tinham feito um bom campeonato. Logo, merecíamos ser campeões!

*Obs: O fotógrafo citado por Adílio é Ruben Etchevarria, uruguaio que acompanhava o cotidiano do Flamengo e falecido em 2017. Em 2014, o próprio Zico relembrou a parceria com o profissional em uma das redes sociais do Rubro-Negro. “Eu estava indo bater o escanteio e o Tchê, fotógrafo uruguaio que fazia todos os churrascos das nossas festas de campeonato, me passou a bola e me falou ‘Vai, bate rápido’. Bati, a bola chegou no Rondinelli e ele mandou de cabeça para o gol. Eu digo que me arrepio mais com esse gol dele do que com muitos gols meus”, disse o Galinho.

Adílio é ídolo da torcida do Flamengo (Foto: Reprodução)

Abel Braga, zagueiro do Vasco
– Sobre o lance do gol: Nem passou nada pela minha cabeça porque a jogada foi muito rápida. Primeiro pela forma que o Zico bateu o escanteio, segundo porque a bola estava nas minhas costas. Para mim, era o Orlando que vinha na bola. Depois, vendo isso tudo, teve o Roberto (Dinamite) que acompanhou um determinado momento e depois parou. Acho que ali não dava para o Leão sair… Mas esse negócio de ver a bola entrando, p*rra, não deu não. A cabeceada foi como um chute!

– Qual time era melhor: Flamengo ou Vasco? Rondinelli acha que era o rival… Não, não concordo com ele não. O time do Flamengo, tecnicamente, era superior. Nós do Vasco tínhamos um time espetacular, que começou a se montar em 1976 e 1977, com a chegada do Marco Antônio, Zé Mário, Orlando, Geraldo. Isso deu mais qualidade. O nosso coletivo era mais forte. Mas um time que tem Cantareli, Rondinelli, Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Zico… Tá de sacanagem! Esse time era muito bom. Foi aí que eles seguiram e foram campeões do mundo.

Abel Braga fez parte da “Barreira do Inferno”, como era conhecida a zaga do Vasco nos anos 70 (Foto: Divulgação/Vasco)

Gaúcho, zagueiro do Vasco
– Sobre o lance do gol:
 Eu estava afastado, bem distante, a bola passou muito alta. Fiquei sem ação, ali não tinha como eu fazer nada. Quando eu vi o Rondinelli passando em velocidade por trás do Abel, senti que ele ia pegar impulsão. O Abel estava parado. É daqueles lances que você só reza, para que de repente ele errasse a cabeceada. Infelizmente para nós e felizmente para o lado deles, ele acertou e foi um lindo gol. São coisas que a gente não espera nunca. Está marcado para o resto da vida, sem dúvidas.

– Qual time era melhor: Flamengo ou Vasco? Rondinelli acha que era o rival… Eram dois times muito fortes, parelhos. O Vasco tinha a parte defensiva muito boa, um time muito compacto. Tinha o Roberto na frente, um jogador fantástico, tinha também um meio-campo muito bom. Era um jogo aberto. Tivemos chance de fazer um gol minutos antes com o Paulinho, que teve a infelicidade de cobrir o Cantareli, botou a bola para fora. Foi algo que nos assustou muito, poderíamos ter marcado e ficado com a vantagem. Mas isso é futebol, as coisas acontecem quando a gente menos espera.

Gaúcho, zagueiro do Vasco na decisão de 78 (Foto: Divulgação)

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Terra
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Acesso em 11/12/2018 20:57.
Link: http://portalgilbertosilva.com.br/noticias/esportes/carioca-de-1978-completa-40-anos-e-rivais-de-fla-e-vasco-revivem-final/.