Filha do autor de novelas Manoel Carlos, a atriz Júlia Almeida falou sobre os últimos anos de vida do pai, que morreu em janeiro, aos 92 anos. Ela relembrou a convivência familiar durante o avanço do Mal de Parkinson e os cuidados que marcaram esse período.
A atriz contou que viver ao lado do autor durante a progressão da doença foi uma experiência marcada por afeto e desafios.
“A convivência com meu pai, Manoel Carlos, nos anos em que o Parkinson avançava, foi ao mesmo tempo afetuosa e dolorosa. Preservar a dignidade dele era minha prioridade. Encontrei paz na convicção de que fiz tudo ao meu alcance para confortá-lo. Exigiu adaptação, vigilância e decisões constantes, e me ensinou o que significa cuidar de alguém com responsabilidade”, iniciou ela, em depoimento à “Veja”.
Júlia também explicou que o diagnóstico mudou completamente a rotina da família, que passou a lidar diariamente com consultas, exames e uma rede de apoio dentro de casa.
“O diagnóstico mudou completamente nossas rotinas. O dia a dia passou a ser tomado por consultas, exames, ajustes práticos e gente entrando e saindo da casa dele para ajudar. Minha mãe, Bety, foi presença permanente, dando o suporte emocional que nos sustentava”. Segundo a atriz, a família tentou manter pequenos hábitos que eram importantes para o autor, preservando ao máximo sua rotina e seus prazeres simples.
“Ele era uma pessoa que cultivava hábitos, e procuramos manter os que tanto valorizava: a ida à piscina, que passou a ser acompanhada de um fisioterapeuta, e também os prazeres simples, como o como o picolé de coco, a cerveja gelada aos domingos, a água mineral que só gostava em garrafa de vidro. Também lhe dávamos o jornal, que ele lia diariamente. Fiz uma profunda reflexão sobre quão essencial era deixá-lo longe dos holofotes”.
Com o agravamento da doença, as internações passaram a ser mais frequentes no último ano de vida do autor, aproximando ainda mais a família.
“Quando as complicações se agravaram e as internações se tornaram frequentes, no início de 2024, mantivemos uma conexão ainda mais próxima. Às vezes, alguém ligava do hospital dizendo: “Júlia, seu pai sonhou com você, fala um oi” — e fazíamos uma videochamada. Pequenos gestos nos aproximavam nos dias mais difíceis”. Ela também relatou como foi o último Natal do autor: “Organizei uma celebração em família. Conversei com ele, beijei sua testa e falei: “Pode descansar”. Não era um gesto de resignação, mas o reconhecimento de um desfecho que eu já vinha aceitando”.
Júlia relembrou o momento da despedida do pai, destacando a serenidade com que ele partiu.
“Nosso último diálogo foi uma troca de olhares. Ele partiu aos 92 anos, em 10 de janeiro, segurando minha mão no hospital. Foi em paz, sereno, ainda que tudo tenha sido doído. […] Apesar das renúncias, cuidei dele mantendo um círculo restrito de amigos que me acolheu e me ajudou a não perder o equilíbrio. Esses anos me amadureceram”. Veja fotos da carreira de Manoel Carlos Júlia Almeida encerrou o depoimento contanto que tem se dedicado à zelar pela obra do pai.
“Catalogar cada caixa, um esforço ainda em andamento, se tornou também uma forma de atravessar o luto. Hoje, produzir os documentários O Leblon de Manoel Carlos e As Helenas de Manoel Carlos (no YouTube) é parte do compromisso de fazer essa história ser lembrada. Meu pai dizia que o que construiu era maior que o tempo. Para mim, isso significa um compromisso. Estive ao lado dele até o último minuto e sigo agora cuidando de seu vasto legado”.
Filha mostra autor Manoel Carlos tomando sol no seu aniversário de 90 anos — Foto: Reprodução/Instagram


