BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Em breve passagem pelo Brasil, a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Malmer Stenergard, afirmou que o Brasília pode desempenhar um papel “muito importante” na mediação da Guerra da Ucrânia. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ela afirmou que abordou o tema com o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores).
“Acredito que seja valioso haver no mundo governos com grande influência, como o Brasil, que possam conversar com ambas as partes. E é aí que o Brasil pode desempenhar um papel muito importante”, afirmou ela nesta quinta-feira (6), ao ser questionada sobre a tradição de neutralidade da diplomacia brasileira.
A declaração, semelhante ao que várias partes envolvidas no conflito disseram nos primeiros anos de conflito, ocorre desta vez em um momento em que Brasília e Kiev ensaiam uma reaproximação após reiterados atritos e uma relação na prática limitada pela posição brasileira também próxima de Moscou.
O governo de Volodimir Zelenski prepara a indicação de uma nova embaixadora para a representação em Brasília, hoje chefiada por um encarregado de negócios. Inna Vasilivna Ohnivets, ex-embaixadora em Portugal, é a mais cotada para o cargo e é bem avaliada por integrantes dos dois governos.
Ao mesmo tempo, Kiev e Bruxelas tentam reforçar o bom momento no conflito dos ucranianos, com ataques incômodos à Rússia e uma pressão cada vez maior, por parte da Europa, à chamada frota fantasma, que tenta driblar sanções para continuar escoando a produção energética russa, inclusive para o Brasil.
“Precisamos nos manter fiéis à ordem mundial baseada em regras, ao multilateralismo”, afirmou Stenergard. “O que a Rússia fez foi uma violação flagrante do direito internacional. Portanto, precisamos realmente defender a Ucrânia para defender o direito internacional. Às vezes, as situações não são tão preto no branco; neste caso, a distinção é muito clara.”
Há pouco mais de dois anos, a Suécia se tornou o último país a ingressar na Otan, a aliança militar ocidental, que faz frente aos avanços de Vladimir Putin e cuja tentativa de alargamento, na versão do russo, contribuiu para a invasão.
Apoiar a Ucrânia tem sido prioridade da aliança, liderada pelos Estados Unidos mas composta majoritariamente por países europeus temerosos de que Putin não parasse em Kiev.
Uma das várias formas de auxílio do bloco é o fornecimento de modelos antigos de caças Gripen, da sueca Saab, para o governo ucraniano.
A aeronave é a espinha dorsal da relação atual de Estocolmo com Brasília -que completa 200 anos em 2026. Com fábrica em Gavião Peixoto (SP), a Saab produz o Gripen com foco na compra brasileira de 36 caças, fora 20 adicionais que ainda estão em processo de negociação.
A empresa sueca tem parceria com a brasileira Embraer, da qual a Suécia comprou cargueiros C-390; há previsão de um centro de inovação no Brasil -e de espaço para aprofundamento dessa relação, segundo a ministra.
A estratégia é voltada também para o mercado latino-americano mais amplo, com um acordo já fechado com a Colômbia para 17 jatos do mesmo modelo brasileiro, provavelmente produzidos na fábrica paulista.
Stenergard também visita a Colômbia nesta sexta-feira (7), para a posse do ultradireitista Abelardo de la Espriella. O novo presidente colombiano, quando ainda era candidato, afirmou que iria revisar o contrato, assinado durante o governo do esquerdista Gustavo Petro.
“Temos um acordo e uma relação de longa data, muito boa, com a Colômbia. Independentemente de qual governo esteja no poder, espero que possamos continuar desenvolvendo essas excelentes relações. Naturalmente, espero que cumpram o que foi acordado”, afirmou a ministra.
Outro pacto importante na relação entre Europa e América Latina que tem vivido dias tensos é o recém aprovado acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul.
Com novas exigências regulatórias e cotas de importação da UE para produtos importantes para a pauta exportadora brasileira, como aço, soja e carne, o acordo que demorou duas décadas para ser finalizado corre o risco de ver ativado seu mecanismo de reequilíbrio -um dispositivo do pacto que pode ser acionado caso uma das partes entenda que foi lesada pela outra por medidas externas ao acordo.
“O acordo é um enorme sucesso, mas sempre há percalços em pactos dessa dimensão. É um problema quando grantes atores mundiais não cumpres as regras comerciais que estabelecemos e, por isso, às vezes precisamos adotar contramedidas. Não é algo que a Suécia queira ver no longo prazo, e sem dúvida, não queremos que isso se transforme em uma guerra comercial cada vez mais acirrada”, afirmou a ministra.
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