O que começou como uma estratégia de saúde interna para a tropa da Polícia Militar do Tocantins (PMTO) transformou-se, em uma década, em um dos maiores fenômenos de transformação social e esportiva do estado. O projeto Dojo de Ouro, fundado em agosto de 2015 no seio do Primeiro Batalhão (1ºBPM), em Palmas, rompeu os muros do quartel para redesenhar o futuro de centenas de jovens e a própria qualidade de vida dos agentes de segurança.
Em 2015, o cenário exigia atenção. O alto índice de estresse, o sedentarismo e o impacto psicológico da rotina operacional refletiam-se na saúde dos militares. Foi neste contexto que o projeto nasceu, inicialmente focado exclusivamente no público interno. “Desde o início, o Dojo de Ouro teve como base não apenas o esporte, mas a formação de policiais mais equilibrados, disciplinados e humanos, capazes de exercer sua função com excelência, autocontrole e consciência social”, explica o Subtenente Caitano, instrutor e um dos pilares do projeto desde a sua fundação.
Uma ponte entre a farda e a sociedade civil
O sucesso dentro da PMTO foi tão latente que a expansão para a comunidade tornou-se inevitável. Hoje, o Dojo de Ouro não é apenas um local de treinamento de Jiu-Jitsu, é uma ponte entre a farda e a sociedade civil. Com ramificações em comunidades vulneráveis, como o Setor Fumaça (Água Fria), o projeto leva mais que esporte, leva palestras sobre prevenção às drogas, cidadania e valores éticos.
Atualmente, o Dojo de Ouro atende 178 participantes, sendo 72 homens adultos, 42 mulheres adultas e 64 crianças.
Segundo o Subtenente Caitano, o modelo adotado no Tocantins já ultrapassa as fronteiras do Estado. “Os resultados alcançados chamaram a atenção de outros estados e até de instituições de fora do país, interessadas em conhecer e replicar essa metodologia que une esporte, disciplina e segurança pública preventiva. O Dojo de Ouro mostra que é possível transformar realidades com ações contínuas, orientação correta e apoio institucional”, destacou.
Do tatame ao topo do mundo: o exemplo de um campeão
Entre os nomes que simbolizam a força e a continuidade do projeto está o jovem atleta Júlio César Caitano, de 16 anos. Representando o Dojo de Ouro e a Polícia Militar do Tocantins, ele protagonizou um feito histórico ao conquistar dois títulos mundiais no Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo (CBJJE), realizado em São Paulo, entre os dias 27 e 30 de novembro.
Competindo na categoria juvenil (16 e 17 anos), Júlio César conquistou o ouro na divisão Meio-Pesado (até 79 kg) e, em seguida, aceitou o desafio da categoria Absoluto, sem limite de peso, enfrentando atletas fisicamente maiores e garantindo o segundo ouro após quatro lutas intensas, levando o nome da PMTO ao topo do pódio.
Após a conquista, o atleta fez questão de destacar o papel do projeto em sua formação. “Me sinto muito grato e orgulhoso por representar a Polícia Militar do Tocantins. O Dojo de Ouro é uma ferramenta essencial no combate ao crime e na promoção da qualidade de vida. O Jiu-Jitsu educa, disciplina, fortalece o caráter e contribui para uma segurança pública preventiva que transforma vidas”, afirmou.
Medalhas que refletem uma política pública de sucesso
Além do desempenho individual, o Dojo de Ouro também se destaca coletivamente. Em 2025, o projeto social da PMTO obteve um desempenho expressivo em dois campeonatos internacionais realizados em Brasília (DF), nos dias 8 e 9 de novembro, conquistando 12 medalhas e um Troféu de 3º Lugar Geral por Equipes.
As conquistas se dividiram em 7 medalhas de ouro, 3 de prata e 2 de bronze, contribuindo diretamente para o desempenho da Delegação Tocantinense, que somou 67 medalhas nos eventos Campeonato Brasília Open Internacional e AJP Tour Central West Regional Jiu-Jitsu Championship – GI.
A delegação contou com 57 atletas dos municípios de Palmas, Gurupi, Araguaína e Pedro Afonso. O apoio logístico e institucional da PMTO foi fundamental para garantir deslocamento, estrutura e suporte técnico aos atletas.
Do tatame para a vida: histórias que se refletem em casa e na escola
O impacto do Dojo de Ouro ultrapassa o ambiente esportivo e se reflete diretamente no convívio familiar e no desempenho escolar das crianças atendidas pelo projeto. Mãe de duas alunas da iniciativa, Rhamiza Silva Martins relata mudanças claras no comportamento e no desenvolvimento das filhas desde os primeiros meses de prática. “Tenho duas filhas no Dojo de Ouro, a Isis Valentina, de 10 anos, que iniciou no jiu-jitsu aos 4 anos, e Ana Marina, de 4 anos, que começou aos 3. Desde os primeiros meses de prática, as mudanças foram claramente perceptíveis nas duas, principalmente no comportamento, na disciplina e na postura”, contou.
Segundo Rhamiza, os benefícios também foram físicos e emocionais. “A Isis, por exemplo, caía com muita frequência antes de iniciar o jiu-jitsu, e a prática trouxe mais firmeza corporal, equilíbrio e consciência ao se movimentar. De forma geral, ambas passaram a demonstrar mais segurança, autocontrole e responsabilidade no dia a dia”, explica a mãe.
Moradoras da região sul de Palmas, outras famílias também testemunham os resultados. Thayna Araújo de Carvalho, mãe do Miguel, de 9 anos, relata mudanças significativas no comportamento do filho. “Depois que o Miguel começou no Dojo de Ouro, vi muita diferença em casa. Antes ele era mais impulsivo, reagia no calor do momento, e hoje pensa mais antes de agir. O Jiu-Jitsu ajudou muito na disciplina, no respeito às regras e no autocontrole, refletindo também no ambiente escolar”, disse.
Na mesma região, Silmaria Brito Coutinho Almeida, mãe do pequeno Otávio, de 6 anos, reforça o impacto positivo. “O Otávio era muito hiperativo, tinha dificuldade de foco e de aceitar um ‘não’. Hoje vejo uma mudança enorme, inclusive na escola. Mesmo morando longe, faço questão de não faltar às aulas, porque o Dojo fez a diferença na vida dele e na minha também. Ele começou aos 4 anos, hoje já compete, conquistou medalha de ouro e isso incentiva ainda mais a continuar”, comemorou.
Investir em esporte é investir em segurança pública
Para o Comandante-Geral da PMTO, Coronel QOPM Márcio Mendonça Barbosa, o Dojo de Ouro representa uma política pública eficiente de segurança, inclusão e cidadania. “O Dojo de Ouro é um exemplo de como a Polícia Militar do Tocantins vai além do policiamento ostensivo. É um projeto que cuida do policial, aproxima a corporação da comunidade e forma cidadãos de bem. Com o apoio do Governo do Tocantins, investir em esporte, prevenção e educação é também investir em segurança pública de qualidade”, destacou.


