Depois que o usuário mostra interesse no tema, ele é bombardeado com conteúdos da “machosfera”. Depois de duas a três horas consumindo vídeos na rede social e engajando em conteúdos radicalizados, cerca de 77% das recomendações seguintes passaram a ser apenas de vídeos masculinistas. Ou seja, o usuário é imerso cada vez mais na “manosfera” e vai deixando de assistir outros temas e perspectivas.
Os algoritmos tendem a aprofundar os usuários em seus temas de interesse, criando as chamadas “bolhas”. Manoel Fernandes, sócio da Bites, empresa de análise de dados, explica que é comum entrar em contato com um conteúdo que se apresenta de maneira mais branda e, aos poucos, ir mergulhando no universo daquele tema, cada vez com mais profundidade, conforme surgem recomendações ofertadas pelo algoritmo. Para o analista, o ideal seria que o usuário, ao perceber que já pesquisou o suficiente sobre o tema, pesquisasse sobre o outro lado da discussão. Porém, as pessoas passam a se identificar com o grupo e ganham a sensação de pertencimento, o que dificulta o abandono do conteúdo.
Meninos com dificuldades para socializar estão mais propensos a serem atraídos e radicalizados. A cientista social Bruna Camilo pesquisou o movimento masculinista e explica que “a fase da adolescência é muito complexa, e quando um menino não consegue socializar como outros garotos, ele fica totalmente envolvido em jogos, ele fica o dia inteiro em casa em frente o computador”. Diante de uma rejeição amorosa, por exemplo, eles tendem a recorrer aos fóruns formados por pessoas com os mesmos problemas, onde se sentem acolhidos. “Quando se tem jovens fragilizados é muito mais fácil de organizar algum tipo de radicalização, porque é mais fácil identificar qual a angústia daquele menino e dizer ‘você tem razão, as meninas não querem meninos como você, elas são aproveitadoras e interesseiras'”, exemplifica a pesquisadora.
Nos Estados Unidos, na Alemanha e na Coreia do Sul, os homens da Geração Z estão cada vez mais conservadores. Gráficos divulgados pelo jornal norte-americano Financial Times mostram que, nestes três países, o número de homens de 18 a 29 anos que se identificam como conservadores tem aumentado ao longo dos últimos anos. As mulheres, no entanto, seguem o movimento contrário, identificando-se cada vez mais como liberais. Para a cientista social Bruna, o fenômeno tem como uma das causas o impulsionamento do movimento masculinista na internet, que tem como alvo especialmente os meninos.

O UOL tenta contato com o TikTok e com o Google para um posicionamento sobre os dados obtidos na pesquisa. O espaço segue aberto para manifestação.





