Lee R. Raymond, ex-CEO da petrolífera Exxon Mobil, morreu nesse sábado (6) em Dallas, nos EUA, aos 87 anos. Ele ficou conhecido por tornar a empresa na mais lucrativa do setor, enquanto resistia firmemente ao consenso científico de que a queima de combustíveis fósseis estava causando um aquecimento potencialmente desastroso da Terra.
Sua morte, em um hospital, foi confirmada por seu filho Colin, que disse que a causa foram complicações de pneumonia.
O acordo de Raymond em 1998 para adquirir a Mobil —uma transação avaliada em cerca de US$ 81 bilhões, então a maior fusão corporativa de todos os tempos— criou a maior empresa petrolífera privada do mundo em termos de vendas anuais, operando em 200 países. O negócio reuniu as duas maiores partes do Standard Oil Trust de John D. Rockefeller, separadas em 1911 por reguladores antitruste federais em um esforço para estimular a concorrência.
Durante seu reinado como CEO, de 1993 a 2005, o implacável corte de custos de Raymond —incluindo a eliminação de um terço dos cargos executivos após a fusão— ajudou a aumentar o lucro líquido de US$ 4,8 bilhões para US$ 36,13 bilhões. O valor de mercado da empresa quadruplicou para US$ 375 bilhões.
Raymond evitava publicidade. Não havia nenhum esforço perceptível para fazê-lo parecer simpático ou agradável ao público em geral ou mesmo aos seus próprios funcionários. Ele era conhecido por fazer comentários cortantes em resposta a perguntas de funcionários ou analistas de investimentos.
“O que vocês estão ouvindo hoje pode parecer entediante”, disse ele em uma reunião com analistas em março de 2005. “Vocês terão que se contentar com um desempenho financeiro e operacional excepcional e consistente”.
Na sede da empresa em Irving, ele trabalhava em uma suíte silenciosa conhecida como “God Pod” (Cápsula de Deus), onde uma pintura de um tigre ficava pendurada atrás de sua mesa. Alguns funcionários o apelidaram de “Iron Ass” (Bunda de Ferro), segundo o livro “Private Empire: ExxonMobil and American Power”, do jornalista Steve Coll.
Antes de Raymond se tornar CEO, seu maior papel público foi assumir o comando da resposta da empresa após o petroleiro Exxon Valdez encalhar em um recife no Prince William Sound, no Alasca, em março de 1989. O acidente derramou 11 milhões de galões de petróleo bruto e atingiu 2.400 quilômetros de costa.
Raymond, então presidente da Exxon, supervisionou a limpeza e, em 1991, ajudou a negociar um acordo de US$ 1 bilhão para resolver acusações legais federais e estaduais decorrentes do derramamento. Ele acusou ambientalistas e políticos do Alasca de piorar o desastre ao se recusarem a deixar a Exxon pulverizar dispersantes químicos na mancha de óleo logo após o vazamento.
Em 1994, um júri federal em Anchorage ordenou que a Exxon pagasse US$ 5 bilhões em danos punitivos a cerca de 34 mil pescadores e outros moradores do Alasca que disseram ter sido prejudicados pelo derramamento. A Exxon recorreu, levando a mais 14 anos de litígio. Em uma decisão da Suprema Corte de 2008, os danos foram reduzidos para US$ 500 milhões.
No início dos anos 2000, enquanto BP e Chevron buscavam apoio popular divulgando seus investimentos em fontes alternativas de energia, a Exxon adotou uma linha dura contra restrições governamentais aos combustíveis fósseis e financiou pesquisas que questionavam o consenso sobre o aquecimento global.
Raymond, um ex-campeão de debates no ensino médio que tinha doutorado em engenharia química, se considerava um cientista com credenciais para questionar esse consenso. Em uma entrevista de 2005 com o apresentador de televisão pública Charlie Rose, Raymond afirmou que havia uma “variabilidade natural” nas temperaturas da Terra ao longo dos milênios.
“Se não estivéssemos aqui, o clima mudaria”, declarou Raymond. “Tem a ver com manchas solares, tem a ver com a oscilação da Terra, e há —há todo tipo de coisas que vêm e vão. Se você conversar com um geólogo, ele vai te dizer que a Terra, ao longo de sua história, foi muito mais quente do que é agora e muito mais fria”, disse.
Como a energia eólica, solar e outras fontes alternativas eram caras e não podiam substituir o petróleo e o gás no curto prazo, argumentou ele, a Exxon deveria se concentrar em encontrar e bombear mais petróleo, incluindo, se possível, no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico, no Alasca.
Ambientalistas denunciavam regularmente a Exxon. “Há um espectro de comportamento corporativo sobre o aquecimento global e a Exxon é o epítome da negação e do engano”, disse Kert Davies, então diretor de pesquisa do Greenpeace EUA, ao The New York Times em 2005.
Raymond também resistiu às tendências corporativas de maior aceitação dos direitos LGBTQ+. Depois que a Exxon adquiriu a Mobil, a empresa combinada revogou as políticas da Mobil que proibiam discriminação com base em orientação sexual e encerrou a prática de fornecer benefícios a parceiros do mesmo sexo. As medidas levaram alguns motoristas gays e lésbicas a boicotar os postos de gasolina da Exxon.
Sob o sucessor de Raymond, Rex Tillerson, a Exxon Mobil adotou políticas mais inclusivas e reconheceu que a atividade humana contribuía para as mudanças climáticas.
Raymond parecia não se incomodar com a impopularidade de suas opiniões. “Nunca tive um grupo focal para decidir qual é minha imagem por aí”, disse ele ao The Wall Street Journal em 1997.
Tampouco desejava discutir sua vida pessoal. Durante uma audiência judicial sobre o derramamento de óleo do Valdez nos anos 1990, um advogado da Exxon pediu a Raymond que resumisse sua trajetória. “Espero que isso não fique muito entediante”, disse Raymond. “Meio que me entedia.”
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Lee Roy Raymond nasceu em Watertown, Dakota do Sul, em 13 de agosto de 1938. Seu pai, Clifford, um engenheiro ferroviário, incentivava os hábitos estudiosos do jovem. Na entrevista de 1997, Raymond lembrou que seu pai aludia à falta de oportunidades em Dakota do Sul e dizia: “Você tem que conseguir uma educação e sair daqui”.
Depois de se destacar em debates e oratória improvisada no ensino médio, Raymond se matriculou na Universidade de Wisconsin e se formou em 1960 com bacharelado em engenharia química. Ele se casou com Charlene Hocevar em 1961. Eles tiveram três filhos, trigêmeos.
Além de sua esposa e do filho Colin, ele deixa outros dois filhos, John e Rob; e sete netos.
Seus hobbies incluíam caça de patos e golfe. Em uma entrevista de 2013 ao Investor’s Business Daily, ele lembrou ter feito três buracos em uma tacada. No jato corporativo, ele gostava de beber leite com pipoca dentro, relatou Coll.
Um dos filhos de Raymond, John, cofundou a Energy & Minerals Group, uma empresa de private equity. “Meu pai me deu três coisas”, disse John Raymond ao The Journal em 2014. “Ele me deu ética de trabalho, me deu uma boa educação e não me deu dinheiro.”
Embora Lee Raymond fosse conhecido por sua combatividade, ele tinha um lado mais suave, segundo o livro de Coll: “Ele podia ser ferozmente leal aos colegas da ExxonMobil e às vezes chorava abertamente quando subordinados enfrentavam doenças ou outras dificuldades pessoais”.





