O vereador Salvino Oliveira (PSD) deixou o presídio José Frederico Marques, em Benfica, Zona Norte do Rio, às 15h40 desta sexta-feira, horas após o Tribunal de Justiça do Rio conceder um habeas corpus para sua soltura. Na decisão, o desembargador Marcus Basilio ressaltou que os indícios apontados pela Polícia Civil são “precários”. As investigações mostram que o fato de o político ser “cria” da Cidade de Deus e ter como slogan de campanha “Vereanças das Favelas do Rio” pesaram para acusá-lo de ligação com o tráfico de drogas. O inquérito da Polícia Civil diz que “tal autodeclaração adquire especial relevo quando contextualizada com o histórico territorial da região, uma vez que a Cidade de Deus, em razão de seus limites contíguos com a Gardênia Azul, foi historicamente utilizada como base avançada e ponto de concentração logística para a reunião de criminosos do Comando Vermelho”.
“Volto a destacar: não se está neste momento se fazendo qualquer juízo de valor conclusivo sobre a investigação realizada pela polícia civil sobre a nefasta organização criminosa. Especificamente, porém, com relação ao paciente, atento exclusivamente ao que consta nos autos, o fundamento da prisão quanto ao indício do seu envolvimento naquela organização é bastante precário, havendo apenas referência a uma conversa de terceiros há mais de um ano, ficando apenas indicado o domínio das facções nas comunidades (com envolvimento direto dos demais representados), não sendo apontada concretamente a imprescindibilidade da prisão para a investigação”, diz trecho da decisão do magistrado, que destacou ainda a falta de contemporaneidade da prisão com os fatos relatados pela Polícia Civil.
O desembargador decidiu que o vereador está impedido de ser ausentar do estado do Rio por mais de 15 dias sem autorização judicial e ter comunicação com os outros investigados.
— Não pense que vai ficar assim. Esses que estão trabalhando de maneira tão esquisita para prender opositores políticos, agora, devem ser investigados. A gente vai cobrar que a Justiça alcance essas pessoas que me trataram desta maneira — afirmou Salvino ao sair da prisão.
O parlamentar disse que a decisão do Poder Judiciário corrigiu uma injustiça.
— Eu disse que estava sendo vítima de uma briga política. E acredito que isso tenha ficado claro. Agora, não pensem aqueles que me agrediram que isso vai parar aqui. Eles também vão prestar contas à Justiça pelo que fizeram comigo. Mentiram, foram covardes, e vão responder pelos seus atos — queixou-se.
A operação
As investigações que levaram o vereador Salvino Oliveira (PSD) à prisão na quarta-feira mostram que o fato de o político ser “cria” da Cidade de Deus e ter como slogan de campanha “Vereanças das Favelas do Rio” pesaram para acusá-lo de ligação com o tráfico de drogas. O inquérito da Polícia Civil diz que “tal autodeclaração adquire especial relevo quando contextualizada com o histórico territorial da região, uma vez que a Cidade de Deus, em razão de seus limites contíguos com a Gardênia Azul, foi historicamente utilizada como base avançada e ponto de concentração logística para a reunião de criminosos do Comando Vermelho”.
Nesta quinta-feira, após a prisão de Salvino ter sido confirmada pela Justiça em audiência de custódia, a defesa do vereador impetrou um pedido de habeas corpus.
A Operação Contenção Red Legacy desencadeada para prender o político e seis policiais militares continua a provocar embates entre as autoridades. O presidente do PSD do Rio, o deputado federal Pedro Paulo, afirmou que vai pedir uma audiência de urgência com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para tratar da prisão.
Nova troca de farpas
O diretório do partido também denunciou ao Superior Tribunal de Justiça, junto à Procuradoria Geral da República (PGR), o suposto uso do aparato policial do estado para perseguir adversários políticos. Na representação, eles pedem o afastamento do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, e do governador Cláudio Castro (PL). A informação foi antecipada na coluna de Lauro Jardim, do Jornal Globo.
— Acabei de formalizar, junto a outros deputados, o pedido de uma audiência com o diretor-geral da Polícia Federal e com o relator da ADPF (das Favelas), ministro Alexandre de Moraes. Pedi que fosse já amanhã (hoje) para entender presencialmente o que está acontecendo aqui no Rio. É uma máfia que está instrumentalizando a polícia para prender adversários — disse Pedro Paulo.
A judicialização representa mais uma escalada na disputa política entre o prefeito Eduardo Paes (PSD) e o governador Cláudio Castro, em um momento em que ambos articulam candidaturas para as eleições deste ano. Ontem, Paes subiu o tom e chamou Castro de “delinquente” e “frouxo”:
— Até que me apresentem provas, vou continuar defendendo Salvino. Ele se autointitula cria da Cidade de Deus. Eu sou cria do Jardim Botânico, de uma família de classe média do Rio. Alguém aqui é cria do Complexo da Penha, de Bangu, Campo Grande, Santa Cruz. Qual é o problema? Se querem me atingir, venham para cima de mim, um político experiente, não (manchem) a honra de um jovem vereador. Tomem vergonha na cara de vocês.
O prefeito afirmou ter “respeito” nas instâncias federais da Justiça e que, por isso, seu partido recorrerá contra a politização da polícia.
Em nota, o Palácio Guanabara respondeu às críticas de Paes, afirmando que a prisão de Salvino seguiu critérios técnicos. “A análise da prisão passou por três esferas diferentes e independentes: Polícia Civil Ministério Público e Judiciário. Não é decisão de governo, é decisão de Justiça. (…) O governo do estado estranha que o prefeito esteja tentado politizar a investigação feita de forma totalmente legal”.
O deputado Pedro Paulo argumenta que, no inquérito, o único dado sobre Salvino é uma conversa em que o nome do vereador é citado por um dos interlocutores. O trecho é o seguinte: “Chefe, acabou de me ligar o Landerson, sobrinho da Tia Márcia, falando que o Pé e você autorizaram o Salvino a trabalhar e que é para eu dar suporte e ajudar nos projetos dele. Procede?”. A resposta do destinatário, no entanto, é por chamada de voz. Não há informações sobre o que ele disse.
“Tal conteúdo revela, de forma indiciária, que a atuação do parlamentar na localidade pode não se dar de maneira autônoma ou estritamente institucional, mas condicionada ao aval e à tutela da organização criminosa dominante”, diz trecho do inquérito.
Além de citar o fato de se apresentar como cria da Cidade de Deus, os investigadores ressaltam no inquérito que Salvino foi indicado como “relator de uma Comissão Especial da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, instituída para analisar, debater e propor políticas públicas voltadas às favelas, com funcionamento no período de 15/04/2025 a 04/12/2025, conforme registros públicos oficiais”. No próprio inquérito, os policiais afirmam que as atribuições podem ser consideradas regulares do mandato do parlamentar, mas argumentam que o nome dele aparecer em uma conversa com lideranças do Comando Vermelho muda o enquadramento da situação.
‘Hipocrisia’
Em outro trecho do inquérito, a autoridade policiais afirma que “agrava-se ainda mais a situação pela hipocrisia manifesta pelo referido vereador, que, em vídeo público por ele gravado e divulgado, critica veementemente o envolvimento de políticos com facções criminosas, qualificando como “absurdo” e escandaloso tal associação. No referido vídeo, Salvino Oliveira refere-se especificamente à prisão do presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, deputado Bacelar, por supostamente ter vazado informações confidenciais sobre mandado de prisão emitido contra o indivíduo conhecido como TH Joias”.
Em nota, a Polícia Civil afirmou que essa investigação começou em 15 de outubro de 2024. Segundo a corporação, a representação pela prisão foi feita em 1º de janeiro de 2026. O Ministério Público analisou e deu parecer favorável no dia 21 de janeiro e o Poder Judiciário autorizou os mandados em 27 de fevereiro, com expedição em 3 de março deste ano, segundo a polícia.
O que diz a Câmara Municipal do Rio
“Em função de a Comissão Especial de Políticas Públicas para as Favelas ter sido citada no inquérito que levou à prisão do vereador Salvino Oliveira como meio facilitador para relações criminosas, a Câmara Municipal do Rio esclarece:
É inaceitável qualquer tentativa de associar o debate sobre políticas voltadas às comunidades a indícios de atividade criminosa. Nascer ou morar em favela não pode ser tratado como sinal de irregularidade e, muito menos, crime.
Da mesma forma, participar de uma comissão parlamentar dedicada a discutir os desafios das comunidades é parte legítima do exercício do mandato e da representação de milhões de cariocas que vivem nesses territórios.
A Câmara do Rio reafirma a legitimidade da Comissão Especial e continuará cumprindo seu papel de dar voz às comunidades e defender políticas públicas que melhorem a vida de quem mora nas favelas do Rio.”
Colaborou Luiz Ernesto Magalhães
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