A resistência cresceu nas redes sociais, com as menções negativas superando com folga as menções positivas ao PL. Referências ao estupro de meninas, que por vezes não conseguem fazer o aborto antes das 22 semanas de gestação, ganharam a opinião pública. Artistas, influenciadoras e jornalistas se posicionaram no debate.
Cobrada, a primeira-dama Janja da Silva escreveu apenas nesta sexta-feira pela manhã contra o PL nas redes sociais, aderindo à campanha de que “criança não é mãe”. Embora Lula ainda não tenha se posicionado publicamente, o post de Janja deu a senha para o governo virar a chave.
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, enviou então posicionamento à imprensa de que era contra “o PL da bancada do estupro”. A estratégia é jogar a responsabilidade para quem propôs o projeto: a bancada evangélica e parlamentares bolsonaristas, sem dar atenção para a omissão do governo até ali.
Mais tarde, Alexandre Padilha, ministro das Relações, afirmou publicamente que “não contem com o governo para mudar a lei do aborto”. Afinal, o PL pune quem tem direito ao aborto legal – mulheres estupradas, que carregam fetos inviáveis ou correm risco de vida.
Fontes no Palácio do Planalto classificam a mudança de postura como “amadurecimento” da discussão. Segundo apurou a coluna, o governo conta com o presidente da Câmara, Arthur Lira, para postergar a votação do projeto, conforme sinalização que ele teria dado ao colégio de líderes. Lira nega essa promessa, porque tem um compromisso com a bancada evangélica. Mas tenta um acordo indicando uma “relatora moderada” e a mais cotada é a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), evangélica e petista.
Se Lira colocar para votar, Padilha deixou claro que vai orientar voto contra – uma guinada em relação a liberar a bancada, posição tomada na quarta-feira. E uma guinada que só ocorreu por causa da reação popular, e que não veio das bandeiras históricas do governo.


