“Tiü Luiz”, como se identificava em sua campanha malsucedida para vereador em Rio do Sul (SC), tinha o seguinte lema de campanha: “Ame tua casa, ame teu país, seja patriota. Prometo dar o melhor de mim pra um bem geral das pessoas de nossa cidade. Paz, amor, generosidade, sinceridade, perdão e humildade”. Na foto, aparece segurando uma bandeira do Brasil. Também divulgou imagens em que aparece no interior no Supremo. Segundo Celina Leão, vice-governadora do DF, ele tentou entrar ontem no tribunal. Felizmente não conseguiu.
Pronto. Alguns fatos estão aí, descarnados de qualquer juízo de valor. Foi o que fez Francisco Wanderley. Não contei nenhuma novidade aos leitores “observadores da realidade”. Quero me dirigir agora aos “leitores analistas”. E a análise supõe que a gente separe o conjunto, o todo, descompondo-o segundo seus elementos componentes.
LEITORES ANALISTAS
Se você partir do pressuposto de que o “Tiü” era apenas um maluco, um esquisitão que não batia bem dos, bem, tenho de dizer estará cometendo, obviamente, um grande erro. Exceção feita a alienados realmente clínicos — que vivem imersos numa realidade particular em que até a gramática é idiossincrática –, nenhum homem é uma ilha. Francisco Wanderley vivia num país determinado, tinha plasmada uma visão de mundo, compartilhava determinados valores e se sentiu compelido — por qual conjunto de estímulos? — a “tomar alguma providência”, a fazer justiça ou história com as próprias mãos.
Continuemos a decompor os elementos constituintes da realidade. O ataque às respectivas sedes dos Três Poderes tem um ano e dez meses. As mesmas lideranças políticas que demonizaram o STF por longos quatro anos, entre 2019 e 2022 — o que resultou, depois da eleição de Lula, nos atos grotescos de 8 de janeiro de 2023 — seguem por aí, a vomitar impropérios contra ministros da Corte. Pior: parte da imprensa passou a normalizar o discurso fascistoide, tratando-o como uma das ofertas do cardápio ideológico, de modo que seria tão legítimo escolher golpe ou democracia como é legítimo pedir carne ou massa num restaurante, segundo o gosto de cada um.
RESPONSABILIDADE POLÍTICA
Não estou aqui à caça de culpados adicionais pelos atos do tal Francisco Wanderley. Deixo a investigação para a polícia e a responsabilização criminal, se houver, para o sistema de Justiça: Ministério Público e Judiciário. Eu me interesso sempre é pela responsabilidade política. Nesse processo de tentar entender direito os elementos componentes da realidade, indago: qual é a mentalidade, qual é a metafísica influente, quais são as prédicas que estimularam um Francisco Wanderley a buscar justiça com as próprias bombas — e jamais saberemos se o que parece ser um suicídio era desde sempre a opção. Tudo indica que a intenção não era morrer sozinho.
De uns tempos para cá, não é raro que o Supremo apanhe na imprensa mais do que os golpistas, que, na verdade, passaram a ser vistos com certa deferência. Alguns prosélitos mostram-se irresistivelmente atraídos pela truculência redentora, seja aqui, seja nos EUA. Encostem o ouvido ao peito de alguns valentes, e perceberão com que determinação batem nos progressistas daqui e de lá. Uns porque tragados pelas supostas velharias do PT; os outros porque engolfados pela “cultura woke”. Em qualquer caso, soltam-se foguetórios comemorando a derrota do progressismo. Uma questão: derrota para quem?


