O segundo turno das eleições presidenciais no Chile será protagonizado neste domingo por polos opostos: Jeannette Jara, comunista moderada de origem humilde que representa uma coalizão de esquerda, e José Antonio Kast, ex-deputado de extrema direita e devoto católico que promete deportar migrantes irregulares em massa. A disputa ocorre em meio à crescente preocupação nacional com a segurança pública e a imigração, temas centrais da campanha.
Embora Jara tenha liderado a primeira etapa do pleito, pesquisas indicam que Kast pode conquistar uma ampla maioria após agregar o respaldo de candidatos de direita. O resultado das eleições no país sul-americano definirá quem assumirá a presidência em 11 de março de 2026.
Kast aposta na deportação de migrantes irregulares
Kast, de 59 anos, é casado e pai de nove filhos. Ele defendeu a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e se opõe ao aborto, mesmo em casos de estupro, à pílula do dia seguinte, ao divórcio e ao casamento homoafetivo. De temperamento calmo, afirma ser um democrata e evita os exageros de outros líderes da extrema direita com quem é comparado, como Jair Bolsonaro ou o argentino Javier Milei.
— Ele é visto como muito sóbrio, muito pragmático, muito pausado e muito calmo em comparação aos demais — afirma à AFP a jornalista Amanda Marton, uma das autoras do livro “Kast, la ultraderecha a la chilena” (“Kast, a ultradireita à chilena”, em português).
Diante da crescente preocupação dos chilenos com o aumento da insegurança e da migração, propõe uma luta implacável contra o crime por meio da deportação dos 330.000 migrantes irregulares que vivem no país, aos quais culpa pelo aumento da criminalidade. Ele reconheceu possuir um revólver de cinco tiros e quer aumentar o poder de fogo da polícia. Mantém uma contagem regressiva para concretizar seu plano de expulsão dos estrangeiros sem documentos, caso assuma o cargo em 11 de março de 2026.
— Se não saírem voluntariamente, iremos buscá-los para expulsá-los — manifesta o candidato, favorito para vencer as eleições chilenas.
É o mais novo de 10 filhos de um casal de alemães que emigrou para o Chile. Seu pai foi soldado do Exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e, no Chile, fundou um próspero negócio de embutidos. Foi deputado por 16 anos. Em 2016, deixou o União Democrata Independente (UDI), no qual militou por décadas, por considerar que o partido havia abandonado os princípios conservadores que o inspiravam.
Em 2019, fundou o Partido Republicano, que lidera com uma mistura de “simpatia pessoal” e um “controle rígido”, de acordo com as palavras de Javiera González, coautora do livro “Kast, el mesías de la derecha chilena” (“Kast, o messias da direita chilena”, no português).
— É uma figura muito de grupo fechado — atesta a jornalista Lily Zúñiga, que trabalhou com ele na UDI.
Mara Sedini, porta-voz de sua campanha, defende seu caráter. — Com as coisas que precisam de teimosia, ele é teimoso, mas também é capaz de flexibilizar e aprender.
Jara, comunista moderada e crítica do partido
Embora milite no Partido Comunista desde os 14 anos, Jeannette Jara faz parte de sua ala mais liberal e crítica. Ela recebeu a nomeação governista nas primárias e representa uma coalizão de nove partidos de centro-esquerda.
— Ela se apresenta como dissidente — atesta à AFP a jornalista Alejandra Carmona, autora da biografia “Jeannette”.
Durante a campanha, enfrentou publicamente a cúpula do Partido Comunista devido à sua visão crítica sobre Cuba e Venezuela, que não considera democracias. A origem popular de Jara contrasta com a elite da política chilena.
— Pela primeira vez (…) uma pessoa que vem dos setores populares pode chegar a governar — afirmou a própria Jara à AFP antes do primeiro turno.
Ela nasceu em 1974 e viveu com os avós até a adolescência em uma casa no estilo meia-água (casa com telhado de única queda) em El Cortijo, bairro pobre no norte de Santiago. Trabalhou como colhedora de frutas e caixa antes de ingressar na universidade. Casou-se aos 19 anos enquanto ainda estudava e ficou viúva aos 21, após a morte do marido. Casou-se novamente, teve um filho, divorciou-se e atualmente está em um relacionamento.
É formada em administração pública e direito. A entrada na política ocorreu durante o governo de Gabriel Boric, que a nomeou ministra do Trabalho. No cargo, ganhou notoriedade ao impulsionar a redução da jornada semanal de trabalho de 45 para 40 horas e a reforma da previdência privada.
— Ela entende que, para alcançar acordos, é preciso ir além de suas próprias convicções — afirma à AFP Darío Quiroga, seu principal assessor no primeiro turno.
Porém, não teme ser drástica. Em 2023, em plena discussão da reforma da previdência, demitiu o então subsecretário do Trabalho, Christian Larraín, que era um bom entendedor do tema, devido a denúncias de assédio sexual. Ela propõe aumentar o salário-mínimo para quase 800 dólares (cerca de 4.330 reais), quase 250 a mais que o atual, fortalecer os direitos trabalhistas e aumentar a produção de lítio.


