Com sistemas e contextos educacionais diferentes, Brasil e Estados Unidos têm convergido nos últimos anos em pautas que estão mudando a cara das salas de aula, com consequências que terão efeitos duradouros para os alunos.
Essa é a análise da pesquisadora americana Constance Lindsay, professora da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA). Ela avalia que os dois países têm vivido a ascensão de políticas educacionais defendidas por grupos conservadores e de extrema direita. Com pouca evidência científica, mas forte apelo discursivo, essas pautas têm avançado e já trazem resultados, sobretudo para os estudantes mais vulneráveis.
A pesquisadora traça paralelos entre as políticas que os países têm adotado, como ações para colocar policiais dentro das escolas e censura a livros e conteúdos didáticos que tratam sobre temas como racismo e gênero.
“Sinto que estamos vivendo um momento de contrarreação. Demoramos tanto para conquistar espaços e implementar políticas para mitigar as desigualdades educacionais, e agora parece haver um esforço para revertê-las”, diz.
Lindsay estuda disparidades raciais na educação e esteve em São Paulo para participar do 4º Seminário Internacional de Gestão Educacional, promovido pelo Instituto Unibanco, com foco na discussão sobre o uso de dados e evidências na educação.
Suas pesquisas avaliaram os benefícios educacionais para estudantes negros que tiveram ao menos um professor negro durante a vida escolar. Como essa relação se mostrou positiva?
Eu e meus colegas nos propusemos a analisar qual era o impacto para os alunos negros de ter um professor negro, sob diferentes aspectos. Um efeito imediato que encontramos nessa relação foi o de que esses estudantes registravam menos advertências ou suspensões quando tinham aula com um professor negro. Ou seja, há uma redução da indisciplina.
O efeito a longo prazo foi o de que os grupos de estudantes negros, que tiveram ao menos um professor negro durante toda a trajetória escolar, tiveram maiores taxas de conclusão do ensino médio.
É o que chamamos de pedagogia culturalmente responsiva, ou seja, o aprendizado é mais eficaz quando há identificação, quando professor e aluno compartilham uma cultura e contexto em comum. O professor usa essa identificação para se conectar melhor com o estudante.
Outro fator é que o aluno passa a ter aquele professor como um modelo positivo, alguém que concluiu o ensino superior, que tem uma boa profissão. É um fator de motivação.
Outro ponto é a interrupção, ainda que momentânea, do racismo sistêmico por parte dos professores brancos. Ou seja, um único professor atenua parte do racismo que esses estudantes sofrem na vida escolar.
Diferentemente dos Estados Unidos, no Brasil a proporção de professores negros na educação básica da rede pública é similar ao de estudantes negros. Ainda assim, nós temos enormes disparidades educacionais, por exemplo, com desempenho menor e maior evasão escolar entre os alunos negros. O contexto social ainda assim é um fator determinante?
Nos Estados Unidos nós temos a mesma situação, com os indicadores mais desvantajosos para os alunos negros. Ter um professor negro não elimina todos os problemas e as situações adversas pelos quais esses estudantes precisam passar.
Ter um professor negro atenua essa lacuna de desigualdade no ensino, mitiga um pouco do racismo, mas não resolve tudo.
Há no Brasil um movimento crescente de políticos que defendem a presença de policiais nas escolas públicas, sob o argumento de aumentar a segurança e a disciplina escolar. Essas iniciativas têm sido defendidas sobretudo para escolas em regiões mais pobres, onde a maioria dos alunos é negra. Como você vê esse tipo de política?
Nós vivemos algo semelhante nos Estados Unidos, especialmente como uma tentativa de resposta aos tiroteios em escolas. Grupos conservadores passaram a defender que a resposta era colocar a polícia dentro da escola. Essa pauta foi muito forte após o episódio de Columbine [em 1999] e foi retomada em 2021, quando tivemos uma nova onda de ataques.
Mesmo sem ter conseguido coibir os ataques, a presença da polícia ficou cada vez mais disseminada nas escolas americanas. E os dados mostram que escolas de maioria de estudantes negros têm mais chances de terem policiais do que as unidades com mais brancos.
O resultado dessa política foi que as punições se tornaram mais severas e mais frequentes para os estudantes negros. Problemas de indisciplina escolar, que antes eram tratados com conversas, advertências e suspensões, passaram a ser tratados como caso de polícia. Afinal, quem está ali dentro da escola é um policial, certo? É essa a forma que eles foram treinados para lidar com problemas.
Assim, alunos envolvidos em brigas não eram mais suspensos, mas levados para detenção, para prestar esclarecimento em delegacia. E os dados mostram que essa maior rigidez foi aplicada a estudantes negros, não aos brancos, assim como ocorre nos demais espaços do cotidiano nas ações da polícia.
Essa diferença de tratamento levou mais jovens a enfrentarem o sistema judicial. Esse registro criminal deixa marcas que vão acompanhá-los por toda a vida, muitos abandonam a escola, não conseguem emprego por causa do registro. Ou seja, é a violência racial se perpetuando mais cedo e aprofundando as desigualdades que já temos.
A violência escolar e os ataques a escola são algo com que temos que lidar, mas se tornaram uma justificativa para a implementação de políticas que são prejudiciais para os estudantes negros e pobres.
A que você atribui o fortalecimento dessas pautas conservadoras na educação?
Essa é uma boa pergunta, para a qual não tenho resposta, mas tenho refletido muito. Nos Estados Unidos, sinto que estamos vivendo um momento de contrarreação. Demoramos tanto para conquistar espaços e implementar políticas para mitigar as desigualdades educacionais, e agora parece haver um esforço para revertê-las.
Por exemplo, durante o governo Obama, a estratégia para reduzir os índices de indisciplina e violência escolar foi incentivar as escolas a adotarem os conceitos de justiça restaurativa com os alunos, que é quando se tenta encontrar outras soluções que não envolvam suspensão, expulsão, advertência. Nos últimos anos, no entanto, o que se viu foi um movimento na direção oposta e mais uma vez a explosão de casos de violência e ataques em escolas.
Sinto que alguns dos progressos que fizemos estão sendo desfeitos. Colocam em prática políticas sem evidência nenhuma, apenas porque elas mobilizam politicamente um grupo barulhento.
Agora, por exemplo, esses grupos conservadores querem proibir as escolas americanas de ensinar história afro-americana, querem que seja banido qualquer conteúdo sobre como os Estados Unidos foram fundados em cima da escravidão, como temos um passado atrelado aos nossos antepassados africanos.
Por que você acha que esses conteúdos incomodam tanto alguns grupos a ponto de quererem proibi-los?
Muito do que sabemos hoje sobre a história africana ou afro-americana são descobertas ainda muito recentes, nós ainda estamos reaprendendo essa história. Quando eu era criança, por exemplo, havia as celebrações do Dia de Colombo [12 de outubro] e essa era uma data vista apenas como um dia de festa. Hoje, alguns lugares comemoram a data como sendo o dia das populações indígenas, porque agora sabemos que esse episódio levou à dizimação desses povos.
Temos hoje uma compreensão diferente da história que era ensinada antes. E para algumas pessoas é muito difícil reconhecer que aquela forma de ensinar não é correta.
Em alguns locais do Brasil há um movimento para incluir ferramentas digitais e aplicativos para monitorar e medir a atividade escolar. Os professores reclamam do excesso de vigilância e da falta de autonomia para dar aula. Como você vê essa tentativa de colocar métrica nos processos de aprendizagem?
Também há essa ideia muito forte nos Estados Unidos, de que tudo deve ser medido com uma métrica e que os professores precisam ser responsabilizados pelo que essas métricas mostram.
Eu acredito que nem tudo pode ser medido. Claro, é importante responsabilizar as escolas por alguns resultados, como os resultados de avaliações e o desempenho escolar dos alunos. Só não acredito que eles sejam tudo, porque a educação não se retrata por números. Ensinar é muito maior e mais complexo do que os números podem mostrar. Olhar apenas para métricas é deixar de fora a parte humana do processo.
RAIO-X | Constance Lindsay, 42
Professora da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, é doutora em desenvolvimento humano e política social pela Universidade Northwestern. Pesquisa a qualidade e a diversidade dos professores nos Estados Unidos e práticas para a redução das desigualdades raciais na educação.


