(FOLHAPRESS) – Uma bactéria resistente a antibióticos, tradicionalmente associada a hospitais, está se espalhando de forma crescente fora desses ambientes, atingindo a comunidade e impondo novos desafios para médicos e sistemas de vigilância em saúde.
A mudança de comportamento é retratada em um estudo baseado em mais de 51 mil exames laboratoriais coletados ao longo de dez anos, com foco na bactéria Staphylococcus aureus, que habita a pele e as vias respiratórias e pode causar desde infecções leves até pneumonias graves.
Quando essa bactéria desenvolve resistência aos antibióticos, passa a ser classificada como MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina). Isso significa que medicamentos da família da penicilina, como a oxacilina, podem não ter efeito no tratamento.
A pesquisa foi realizada em parceria entre a Afip (Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa) e a Escola Paulista de Medicina da Unifesp, analisando 51.532 exames positivos coletados na macrorregião de São Paulo. O estudo identificou crescimento significativo da circulação da bactéria resistente fora do ambiente hospitalar.
Os dados analisados entre 2011 e 2021 foram publicados na revista Research Connections, da Oxford University Press, e representam uma das maiores análises populacionais já feitas sobre o tema em países de renda média.
Os resultados mostram que os casos hospitalares de MRSA apresentaram queda média anual de 2,48%, enquanto as infecções de origem comunitária cresceram, em média, 3,61% ao ano. Ao todo, a bactéria resistente esteve associada a 43% das infecções avaliadas, com maior incidência entre crianças pequenas e idosos.
Segundo os pesquisadores, o aumento fora dos hospitais indica que a resistência, antes concentrada em ambientes controlados, agora circula de forma mais ampla na população.
Mapas do estudo apontam maior concentração de casos na região central da cidade de São Paulo, área com alta vulnerabilidade social, além de municípios do litoral. Fatores como densidade populacional, clima e circulação de pessoas podem influenciar esse cenário.
Entre as amostras associadas à comunidade, cerca de 22% já apresentavam resistência a antibióticos, percentual considerado elevado para uma bactéria historicamente hospitalar e que indica risco epidemiológico.
Os pesquisadores destacam que esse avanço aumenta a chance de falha no tratamento inicial, especialmente quando a escolha do antibiótico é feita sem exames prévios.
Em países como Estados Unidos e na Europa, esse fenômeno já levou a mudanças nos protocolos médicos. No Brasil, porém, os dados ainda são fragmentados, com variações regionais importantes.
No Sistema Único de Saúde (SUS), as opções de antibióticos eficazes por via oral são limitadas, o que pode levar à necessidade de internações, aumentando custos e pressionando o sistema hospitalar.
Especialistas defendem a ampliação da vigilância epidemiológica, integração de dados e uso mais racional de antibióticos como medidas essenciais para conter o avanço da resistência.
Entre as formas de prevenção estão a higiene frequente das mãos, cuidados com feridas, limpeza de ambientes e uso responsável de medicamentos, evitando a automedicação e o uso inadequado de antibióticos.
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Folhapress | 05:15 – 18/03/2026


