Um ícone da arte ocidental, “O Nascimento de Vênus”, do do mestre renascentista italiano Sandro Botticelli, é objeto de estudos há mais de 500 anos. A obra, pintada entre 1482 e 1485 retrata a deusa do amor emergindo do mar sobre uma concha, empurrada pelos ventos e acolhida na praia por uma ninfa.
As formas e as expressões da Vênus de Botticelli despertam fascínio e dúvidas. Acredita-se que o rosto da deusa foi inspirado em Simonetta Vespucci, uma nobre considerada a mulher mais bela de Florença à época.
Agora, um estudo diz ter decifrado o que há por trás da obra icônica. O lendário artista pode ter retratado fielmente os sinais sutis de uma doença devastadora que vitimou sua musa décadas antes de a medicina moderna conseguir explicá-la. Durante séculos, historiadores da arte atribuíram o olhar desviado de Vênus principalmente ao simbolismo, sugerindo que Botticelli o pintou intencionalmente como um sinal de beleza ou devoção religiosa.
Detalhe de ‘O Nascimento de Vênus’, obra icônica de Sandro Botticelli — Foto: Reprodução Cientistas da Queen Mary University of London afirmam que seu olhar ligeiramente desalinhado pode ter sido causado por um adenoma hipofisário, um tumor cerebral geralmente benigno que cresce na glândula hipófise.
As descobertas baseiam-se em uma teoria que a equipe propôs pela primeira vez há sete anos.
Após analisarem documentos históricos adicionais, os pesquisadores agora acreditam que um tumor hipofisário em expansão provavelmente causou a emergência médica que tirou a vida de Simonetta aos 23 anos — contrariando a crença de longa data de que ela havia morrido de tuberculose.
“É possível que o posicionamento irregular dos olhos em ‘O Nascimento de Vênus’ — o ‘estrabismo’ ou desvio ocular, mais tarde considerado um traço de piedade e beleza — tenha sido causado pelo tumor hipofisário”, afirmou Paolo Pozzilli, autor sênior do novo estudo.
Os indícios, de acordo com a pesquisa, estão em outra obra do mestre italiano
“Na obra ‘O retrato alegórico de uma mulher’, de Botticelli, a modelo é Simonetta Vespucci, em fase de amamentação, e, no entanto, sabemos que ela não teve filhos. Essa é uma maneira surpreendente de retratá-la, e acreditamos que isso, juntamente com alterações nos traços faciais, poderia revelar os sintomas físicos reais de um adenoma secretor de prolactina e hormônio do crescimento”, completou Domiziana Nardelli, a autora principal do estudo.
De acordo com o estudo, Simonetta pode ter sofrido uma apoplexia tumoral — uma condição perigosa na qual um sangramento ou inchaço no interior do tumor se transforma em uma emergência médica.
A pintura original, uma das mais conhecidas do Renascimento, está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença. A tela mostra Zéfiro (deus do vento) e Aura (deusa menor também associada ao vento) soprando suavemente Vênus, em pé numa concha, até a costa, onde a deusa da Primavera a aguarda para cobri-la com um manto florido. Vênus assume a postura da Venus pudica (Vênus recatada), tentando cobrir sua nudez com elegância e melancolia.





