As mensagens e rastros deixados por Francisco Wanderley permitem concluir — e não se trata de uma imputação penal — que as decisões que tomou são manifestações tardias de um mesmo entendimento sobre o processo eleitoral de 2022, as consequências penais que colheram os atores da barbárie de janeiro passado e o inconformismo com a atuação da Justiça.
As objeções as respectivas falas dos ministros do STF e do diretor-geral da Polícia Federal são de tal sorte exóticas que nem erradas conseguem ser. São só a exceção de um tanto mais de fel contra o Supremo — no caso, a potencial vítima da agressão. As consequências só não foram absurdamente mais trágicas do que aquilo que se viu porque “Tiü França” não conseguiu entrar no Supremo e porque os policiais, depois, durante a investigação, tomaram os devidos cuidados. Ele tinha feito de seu próprio corpo e da casa que alugou armadilhas mortais. Foi desastrado, sim, felizmente, mas nem por isso manso. Sem treinamento adequado e escolhas corretas, policiais teriam morrido.
Nota à margem: tudo indica que Daiane Dias, ex-mulher de Francisco Wanderley, botou fogo na casa do ex-marido. Ela foi resgatada do local na manhã de ontem com queimaduras por todo o corpo. Eis outra investigação que tem de ser feita com cuidado. Ela concedeu entrevista na quinta passada. Comentei na BandNews FM e no BandNews TV que estranhei duas passagens de sua fala, além de uma calma perturbadora. Pergunta o repórter: “Ele falava que ia matar gente, se matar?” E ela: “Não! Gente não. [falava em matar] Alexandre de Moraes”. E sorriu levemente. Insiste o repórter: “Só Alexandre de Moraes?” Ao que respondeu: “E quem estivesse perto naquela hora”. Disse ainda que o plano existia desde o resultado da eleição de 2022. E concluiu: “Ele não se mataria. Ele jamais tiraria a vida dele, a não ser que ele tivesse cumprido o objetivo dele [matar Alexandre de Moraes]. Isso aí eu sabia. Então, se ele morreu em vão (sic), não levou ninguém, é porque descobriram o que ele ia fazer”.
MINIMIZAÇÃO DA BARBÁRIE E DO RISCO
Quando me lembro de que a barbárie inédita contra os Poderes da República tem apenas um ano e dez meses, mais me espanta certo esforço para minimizar a gravidade tanto daqueles episódios como a da ocorrência de agora. Pior: ao inventarem uma antecipação de juízo de Moraes e de Rodrigues sobre o caso recente, há um esforço evidente de responsabilização da vítima. É espantoso! Por que é assim?
Não tenho como investigar o fundo das consciências. O que vejo, de modo nítido, inequívoco, é um esforço de certos setores para transformar o golpismo de Bolsonaro e sua turma num dos modos de ser da política. Assim, haveríamos de nos acostumar com isso, de sorte que ações tipificadas como crimes no Código Penal passariam a ser, assim, um “novo normal”. Bolsonaro, na sua campanha em favor da anistia para os golpistas e para si mesmo, até nos convidou em artigo a aceitar a democracia…
Nas redes sociais, vocês já devem ter constatado, o bolsonarismo resolveu minimizar também o ataque de agora. Se o do 8 de janeiro de 23 não passava do inconformismo de um grupo de tios e tias armados apenas com a Bíblia e a Bandeira do Brasil, como dizem eles, o de agora foi só coisa de um lunático que resolveu manipular fogos de artifício. Tudo bobagem, sem importância. Sabem como é… Como as PMs não aderiam ao golpe no ano passado — e esse era o plano — e como “Tiü França não conseguiu entrar no STF, então nada aconteceu. Tratar-se-ia apenas, sei lá, de um patriotismo meio atrapalhado…





