🔎 Nove estados compõem a Amazônia Legal Brasileira: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
Os municípios foram divididos em quatro escalas, conforme a quantidade de moradores que possuem:
Pequeno 1: até 20 mil habitantes;Pequeno 2: de 20 mil a 50 mil habitantes;Médio: de 50 mil a 100 mil habitantes;Grande: acima de 100 mil habitantes. O FBSP considerou as taxas de mortes violentas intencionais dos últimos três anos para analisar as taxas a cada grupo de 100 mil habitantes. Os números indicaram os seguintes municípios com maiores taxas:
Esta é a 4ª edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, que conta com parceria do Instituto Clima e Sociedade, do Instituto Itausa, do Instituto Mãe Crioula e do Laboratório Interpretativo Laiv.
Motivações para a violência nessas cidades
Presença do CV no Amazonas — Foto: Divulgação
David Marques, gerente de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que essas cidades sofrem com conflitos de facções pelo domínio do crime organizado. Segundo ele, dissidências e cenários instáveis de controle das regiões contribuem para aumento nas taxas de homicídios.
Ele cita como exemplo o Mato Grosso, que tem 6 das 20 cidades listadas entre as mais violentas. A área contempla a Terra Indígena Sararé, local com presença de grupos de garimpeiros ilegais, além de facções criminosas.
“Até no ano passado, a gente documentou algumas dissidências da [facção criminosa] Tropa do Castelar, que tinha ali uma relação com o PCC. Isso eleva as taxas de homicídio”, afirma. “Nessa região, tem esses garimpeiros se organizando e tentando constituir, inclusive, proto-milícias para fazer frente ao poder fogo do crime organizado, o Comando Vermelho. Então, isso tem elevado muito as taxas de homicídio na região. É a fotografia dos municípios mais violentos”. Segundo o estudo, as situações das cidades são as seguintes:
Vila Bela da Santíssima Trindade (MT): possui posição geográfica estratégica para o tráfico de drogas pela proximidade com a Bolívia;Nobres (MT): sob influência do CV, registrou conflitos entre a facção e o PCC;Calçoene (AP): é atravessada pela BR-156, que liga Macapá ao Oiapoque. Estrada é usada como corredor estratégico para o tráfico de drogas;Alto Paraguai (MT): próximo das BR-163 e BR-364, é dominado pela Tropa do Castelar (dissidência do Comando Vermelho), fundada no estado do Mato Grosso;Cumaru do Norte (PA): dinâmica da violência no município está ligada a conflitos agrários, garimpo, presença de facções e desmatamento acelerado;Rio Preto da Eva (AM): disputas entre PCC e CV ao longo de 2024;Barra do Bugres (MT): posição geográfica estratégica para o escoamento de drogas vindas da Bolívia. É disputada por CV e PCC;Aripuanã (MT): tem a presença de dinâmicas criminosas como garimpo ilegal, tráfico de drogas e possui terra indígena em seu território, onde o Comando Vermelho explora garimpos;Novo Progresso (PA): cidade atravessada pela BR-163, usada como corredor para o escoamento do tráfico de drogas e registra conflitos fundiários;Mocajuba (PA): parte da violência pode ser atribuída ao CV, mas violência policial provocou metade (11) das mortes violentas intencionais no município;São Félix do Xingu (PA): segundo o FBSP, a cidade apresenta “sobreposição crônica” de desmatamento, conflitos fundiários e presença de facções;Coari (AM): localizada em posição estratégica na região do médio rio Solimões, serve como um corredor hidroviário para o escoamento de drogas do Peru e da Colômbia;Iranduba (AM): o município compõe a região metropolitana de Manaus, absorvendo em parte as dinâmicas de violência presentes na capital e tem forte atuação do CV;Tabatinga (AM): município localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Tem localização estratégica devido à proximidade dos países produtores de cocaína e é considerada uma das mais importantes entradas de drogas no país;Santa Inês (MA): o município é cortado por duas rodovias federais, a BR-316 e a BR-222, pela Estrada de Ferro Carajás, e possui um aeroporto regional. É visto como estratégico para envio de drogas e outros produtos de crimes;Sorriso (MT): localização estratégica pela divisa do Mato Grosso com a Bolívia. CV e PCC disputam o controle do território desde 2023;Santana e Macapá (AP): municípios concentram cerca de 75% da população do Amapá e 79% das mortes violentas intencionais do estado. São complementares: Macapá é capital e centro administrativo, já Santana, é uma cidade portuária e logística. Segundo FBSP, a localização “facilita o crime transfronteiriço”, incluindo o tráfico de drogas, de pessoas e ilícitos ambientais. Altamira (PA): maior município do país em extensão territorial, a cidade tem registro histórico de grilagem e desmatamento ilegal, com disputas entre CCA e CV pelo controle do crime local;Itaituba (PA): Fórum afirma que cidade está em eixo estratégico do rio Tapajós, o que lhe confere “características estruturais que favorecem a expansão da economia ilegal relacionada ao garimpo e outros crimes ambientais”, além da presença de facções criminosas. Presença de facções cresce e chega a quase metade da Amazônia
O estudo também mostra que a presença de facções criminosas cresceu e chegou a 45% dos municípios que compõem a Amazônia Legal.
São 772 cidades na região, das quais 344 apresentaram alguma evidência da presença de facções, de acordo com o levantamento. O aumento é de 32,3% em relação ao ano passado, quando o Fórum identificava 260 cidades com facções. Veja no mapa abaixo.
Para o FBSP, o crescimento está diretamente ligado ao controle das rotas de tráfico de drogas na região, como no Alto Solimões. Crimes locais, entre eles o garimpo ilegal, também contribuíram para a expansão dos grupos criminosos (leia mais abaixo).
Quantas e quais são as facções
São 17 grupos diferentes identificados pelos pesquisadores, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), além de grupos locais e até internacionais, como o Tren de Araguá, da Venezuela, e a ex-Farc, da Colômbia.
Segundo o estudo, o CV tem influência em 83% do total de cidades com presença de facções, chegando a 286 cidades — seja de forma hegemônica ou em disputa com outros grupos criminosos. Veja no mapa abaixo.
Originário do Rio de Janeiro, o CV domina o crime organizado em 202 cidades, enquanto disputa a hegemonia com rivais em outros 84, de acordo com dados do Fórum. Houve crescimento de 123% de sua presença na Amazônia desde 2023, quando estava em 128 cidades.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) está em 90 municípios, com controle da criminalidade em 31 e disputando o domínio em outros 59. A facção teve leve oscilação na presença registrada há dois anos, quando aparecia em 93 cidades.
As 17 facções que foram identificadas na Amazônia:
Comando Vermelho (CV);Primeiro Comando da Capital (PCC);Amigos do Estado (ADE);Bonde dos 40 (B40);Primeiro Comando do Maranhão (PCM);Famílai Terror do Amapá (FTA);União Criminosa do Amapá (UCA);Comando Classe A (CCA);Bonde dos 13 (B13);Bonde dos 777 (dissidência do CV);Tropa do Castelar;Piratas do Solimões;Bonde do Maluco (BDM);Guardiões do Estado (GDE);Tren de Araguá (Venezuela);Estado Maior Central (ECM, da Colômbia);Ex-Farc Acácio Medina (Colômbia). Rota do tráfico e modo de atuação favoreceu o CV, indica pesquisador
Segundo David Marques, gerente de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a presença maior do Comando Vermelho na região é justificada pela descentralização, enquanto o PCC, por exemplo, centraliza as decisões em seus chefes de São Paulo.
“A lógica de funcionamento do Comando Vermelho é como se tivéssemos a criação de franquias associadas ao grupo [nos estados]”, afirma. Ainda de acordo com Marques, o grupo criminoso do Rio tem necessidade de atuar na Amazônia e escoar drogas pela região, já que o PCC controla a chamada “rota caipira” do tráfico, com corredores que escoam substâncias vindas das fronteiras pelo Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná até serem exportados por portos rumo à Europa e África.
“O PCC, nesses outros territórios, está muito mais interessado em fazer parcerias com organizações locais e nos fluxos mais macro, do atacado do tráfico. Enquanto o Comando Vermelho tem o interesse pelo atacado também e, para isso, é muito importante o controle territorial”, afirma.
Presença das facções nos estados
A presença nos estados varia de acordo com a localidade: quanto mais próximo da fronteira com outros países da América do Sul, mais forte a presença.
O Acre, que faz divisa com Peru e Bolívia, tem presença em 100% dos seus 22 municípios. Já o Tocantins, no outro lado, na divisa com o Nordeste, tem 12% das 139 cidades com registro de grupos criminosos. Veja baixo:
Acre: 22 de 22 municípios (100%);Amapá: 10 de 16 (62,5%);Amazonas: 25 de 62 (40%);Maranhão (parte amazônica): 53 de 181 (29%);Mato Grosso: 92 de 141 (65%);Pará: 91 de 144 (63%);Rondônia: 21 de 52 (40%);Roraima: 13 de 15 (80%);Tocantins: 17 de 139 (12%). Outros dados do estudo sobre violência na Amazônia Legal:
Mortes violentas na Amazônia Legal caem para 8.047 em 2024, mas seguem 31% acima da média nacional;Maranhão é único estado da Amazônia Legal a ter alta na taxa de homicídio em 2024, com crescimento de 11%; Amapá lidera ranking de violência;Pará e Maranhão lideram conflitos no campo na Amazônia Legal; 2024 teve recorde de 1.317 casos, aumento de 20% em relação a 2023;Feminicídios são 19% maior na região amazônica do que a média nacional;Estupro sobem na Amazônia, com 13 mil registros: quase 80% das vítimas têm 14 anos ou menos;Facções criminosas estão criando regras comportamentais para mulheres, que chegam até necessidade de autorização para terminarem relacionamentos;Municípios sem polícia viram zonas dominadas por facções na Amazônia Legal;Apreensão de drogas subiu 21% em 2024 na Amazônia Legal;A Polícia Federal apreendeu 118 toneladas de cocaína na Amazônia entre 2019 e 2024: o aumento foi 84,8% no período.


