Em uma década, as 15 favelas que compõem o Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, foram alvo de 231 operações policiais. Os dados da série histórica são do boletim Direito à Segurança Pública na Maré, divulgado nesta quinta-feira pela Redes da Maré. Segundo o documento, as ações resultaram em 160 mortes, mas apenas 16 desses casos tiveram perícia realizada no local. O impacto também atingiu a rotina de serviços públicos: ao longo do período, escolas da região ficaram fechadas por 163 dias — o que equivale à perda de aproximadamente um ano letivo.
O levantamento, que reúne informações de 2016 a 2025, contabiliza ainda 1.538 episódios de violências e violações de direitos durante as operações. No período, 318 imóveis, entre casas e estabelecimentos comerciais, foram invadidos, e 243 moradores relataram danos ao patrimônio.
Operações policiais em uma década no Complexo da Maré — Foto: Editoria de Arte Além das mortes, nesse período a Maré registrou 226 pessoas feridas em operações policiais. Há também registros de 67 casos de tortura, 135 de violência psicológica, 178 de violência física, 90 de violência verbal e 76 de subtração de pertences.
O ano com maior número de mortes foi 2019, com 30 vítimas em 24 operações. Já 2024 concentrou o maior volume de ações policiais: foram 42, que resultaram em 20 mortes. Em 2025, houve redução no número de operações, sendo 16 ao todo, mas a letalidade proporcional aumentou: 12 pessoas morreram, alta de 58% na comparação com o ano anterior.
O impacto das operações na Maré — Foto: Editoria de Arte Coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública da Redes da Maré, Tainá Alvarenga afirma que os dados indicam a permanência de um padrão de violações no território, que se perpetua há muito mais tempo.
— Ao longo desses dez anos, o que se observa é a repetição de um padrão. Operações que geram milhares de violações de direitos: agressões psicológicas, mentais, violações a domicílio, o impacto direto nas políticas públicas essenciais para o bem-viver da população, como saúde e educação — diz.
O boletim também aponta para o uso de helicópteros nas operações. Entre 2019 e 2025, ações com aeronaves concentraram 64% das mortes registradas. Em 2025, metade das operações contou com helicópteros, e em 25% dos casos houve uso como plataforma de tiro.
A prática, segundo a Redes da Maré, amplia os riscos em áreas densamente povoadas e contraria diretrizes do Supremo Tribunal Federal (STF), estabelecidas na ADPF 635, conhecida como “ADPF das favelas”, que determinam a redução da letalidade policial.
Em nota, a Secretaria de Estado de Segurança Pública informou que não comenta os dados do relatório por desconhecer a metodologia utilizada. A pasta afirmou ainda que cumpre integralmente as determinações do STF relacionadas à ADPF 635.
A Secretaria estadual de Educação informou que o número de escolas impactadas varia, considerando que a suspensão das aulas pode ocorrer em apenas um turno específico ou abranger todos os turnos da unidade escolar. “Sempre que há interrupções, as aulas perdidas são repostas, atendendo ao planejamento pedagógico e aos 200 dias letivos, conforme estabelecido pelo MEC”, segundo a nota. “A Seeduc esclarece ainda que, para garantir a segurança no ambiente escolar, segue protocolos de Comunicação e Proteção de Unidades Escolares firmados com o Ministério Público”.
A Secretaria Municipal de Educação informou que, para minimizar os impactos pedagógicos das interrupções em decorrência de operações policiais, “oferece estratégias como reforço escolar, apoio pedagógico nas próprias unidades, Aulões Cariocas para tirar dúvidas, videoaulas com questões comentadas e materiais específicos de reposição”.
Jefferson de Araújo Costa, jovem morto durante ação na Maré — Foto: Reprodução Perícia e denúncias
Das 160 mortes registradas em operações policiais na Maré entre 2016 e 2025, apenas 16 tiveram perícia realizada no local, e, entre esses casos, somente um resultou em denúncia do Ministério Público: o de Jefferson de Araújo Costa, morto com um tiro à queima-roupa durante uma operação na Avenida Brasil, na altura do Complexo da Maré, em fevereiro de 2024. No dia, moradores realizavam um protesto contra a ação policial, e o policial militar Carlos Eduardo Gomes dos Reis foi o responsável pelo disparo.
Irmã da vítima, Lidiane Costa, de 31 anos, afirma que o jovem foi atingido pouco depois de chegar ao protesto. Segundo ela, ele havia ido ao local apenas para acompanhar a mãe e não participava de nenhum confronto.
— Ele era um menino humilde, alegre e feliz. Gostava de ficar com a família e ajudava as pessoas. Não fazia nada de errado, nunca foi bandido. Ele morreu inocente. Não merecia ter morrido dessa forma — diz.
Polícia Civil realiza operação no Complexo da Maré
Ela relata que não presenciou o momento do disparo, mas chegou ao local pouco depois. Segundo a família, o policial não prestou socorro imediato. Jefferson foi levado ao hospital em uma caminhonete branca, mas já chegou sem vida.
De acordo com a coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública da Redes da Maré, Tainá Alvarenga, a ausência de perícia compromete a responsabilização. Para ela, o caso pode ser uma exceção por ter ocorrido na Avenida Brasil, e não no interior da Maré.
— As mortes ocorrem em contextos com grande presença policial, o que permitiria a preservação da cena. Ainda assim, isso não acontece. Em 2025, nenhuma das 12 mortes teve perícia, o que dificulta o acesso das famílias à verdade e à justiça — afirmou.
Em recurso apresentado em janeiro deste ano, o policial alegou não ter tido intenção de matar e pediu para responder por homicídio culposo. O pedido foi negado pela Justiça em 12 de março, e ele será levado a júri popular. A acusação é de homicídio doloso triplamente qualificado, por motivo fútil, impossibilidade de defesa da vítima e uso de arma de uso restrito.
Em nota, a Polícia Militar informou que o cabo responde a Conselho de Disciplina e aguarda decisão judicial. A corporação afirmou que o agente está em liberdade por habeas corpus, com porte de arma suspenso e afastado do serviço operacional. Disse ainda que não compactua com desvios de conduta e adota medidas rigorosas quando há comprovação de irregularidades.
Impacto nos serviços públicos
As operações policiais na Maré também provocam interrupções recorrentes em serviços públicos essenciais, como educação e saúde. Entre 2016 e 2025, escolas do território ficaram fechadas por 163 dias, o equivalente, segundo a organização, à perda de quase um ano letivo na trajetória de crianças e adolescentes. Pelos critérios do Ministério da Educação, no entanto, um ano letivo na educação básica corresponde a 200 dias.
Em 2025, foram nove dias sem aulas, afetando cerca de 25 escolas e 7.908 alunos. O impacto, porém, vai além dos fechamentos oficiais. Mesmo quando não há suspensão das atividades, o medo de confrontos afasta estudantes das salas de aula. Professores relatam que rumores de operações já são suficientes para reduzir a frequência, e que os efeitos se estendem para os dias seguintes.
— Às vezes a escola não fecha, mas as crianças faltam porque há expectativa de operação. E, no dia seguinte, a presença ainda é baixa — relata uma professora que atua na região.
Segundo ela, uma única operação pode comprometer vários dias de aprendizado. Em um dos casos, um aluno deixou de ir à escola por três dias consecutivos — antes, durante e após uma ação policial —, acumulando perdas de conteúdo.
Na área da saúde, as operações também resultam em interrupções no atendimento. Somente em 2025, unidades deixaram de funcionar por 14 dias, o que levou ao cancelamento de 7.866 atendimentos. Esses efeitos atingem especialmente a vacinação infantil. Segundo dados do boletim, em dias de operação, o acesso a serviços básicos de saúde pode ser comprometido em até 90%, prejudicando o cumprimento do calendário vacinal.
— Muitas crianças acabam perdendo o período ideal de imunização, o que pode gerar consequências duradouras — diz Tainá Alvarenga.
O levantamento aponta que, mesmo em operações sem registro de mortes, há efeitos significativos sobre o funcionamento da cidade, com interrupção de serviços e restrição de circulação, ampliando a vulnerabilidade da população.


