A intolerância religiosa não dá trégua. Ataques a espaços sagrados continuam acontecendo em diversas regiões do Brasil, numa tentativa recorrente de silenciar as tradições ancestrais afro-brasileiras, ferindo diretamente a Constituição que assegura a liberdade de crença e de culto.
É importante lembrar que o dia 21 de janeiro foi instituído como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, em memória da Ìyálórìṣà Gilda de Ògún, fundadora do Ilé Àṣẹ Abassá de Ògún, em Salvador, na Bahia. Mãe Gilda faleceu de infarto, em 21 de janeiro de 2000, após sofrer calúnias, perseguições e ataques motivados por intolerância religiosa, tornando-se símbolo de força, resistência e luta contra a violência direcionada às religiões de matriz africana.
Apesar da data e das mobilizações em todo o país, a violência persiste. No último sábado, em Salvador, o terreiro Nzo Mutalombô ye Kayongo Toma Kwiza, localizado no Bairro de Cajazeiras XI e com 33 anos de atuação no local, foi alvo de vandalismo. O espaço foi pichado com tinta vermelha com palavras ofensivas e de cunho religioso. O sacerdote Pai Mutá registrou ocorrência na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa. As investigações seguem em andamento, mas até o momento ninguém foi preso.
Casos como esse se repetem em todo o território nacional. Na maioria das vezes, os responsáveis por ataques a terreiros não são identificados nem punidos, o que mantém o povo de axé em constante vulnerabilidade, exposto a novos episódios de perseguição e violência por motivo de fé.
Diante desse cenário de ataques sistemáticos contra as religiões de matriz africana, São Pedro da Aldeia se transforma em território de resistência, fé e diálogo. No próximo domingo, dia 25, a partir das 16h, a Praça Hermógenes Freire da Costa será ocupada por lideranças religiosas, filhos e filhas de casas de axé, movimentos culturais e representantes da sociedade civil durante o Manifesto Alada Méèjí, um ato público que reafirma o direito de existir, cultuar e preservar a ancestralidade afro-brasileira.
A mobilização surge como resposta direta a um episódio que abalou profundamente o povo de axé da Região dos Lagos. No dia 10 de dezembro, o Ilé Alákétu Àṣẹ Alágadá Méji, sob a responsabilidade do Bàbá Felipe de Ògún, foi completamente destruído em um ataque de intolerância religiosa. O espaço, que se encontrava em fase avançada de construção, teve materiais quebrados, objetos sagrados violados e assentamentos destruídos, causando um impacto que ultrapassa o prejuízo material e atinge o campo espiritual e emocional da comunidade.
Mãe Élida de Ọya e Bàbá Felipe de Ògún — Foto: divulgação Idealizado pela Ìyálòrìṣá Élida de Ọya, por meio do coletivo EcoaAxé, em parceria com Bàbá Felipe de Ògún, o manifesto se constrói como uma resposta firme, consciente e organizada. Não há confronto, mas há posicionamento. Não há silêncio, mas há palavra, corpo e fé ocupando o espaço público como expressão legítima de cidadania.
Ao longo da tarde, casas religiosas de São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Araruama, Arraial do Cabo, Iguaba, Macaé, Búzios e do Grande Rio de Janeiro se unem em um ato ordeiro e pacífico. Um grande ṣiré (xirê roda de cânticos e danças ao Orixás) coletivo será realizado como forma de fortalecimento e reafirmação de que os povos de terreiro respondem à violência com união, espiritualidade e organização.
Durante o ato, São Pedro da Aldeia também viverá um momento simbólico importante. O município passa a integrar oficialmente o Calendário Unificado do Presente de Yemanjá, reconhecendo as religiões de matriz africana como parte viva da história, da cultura e da identidade local.
O Manifesto Alada Méèjí vai além do campo religioso. Ele dialoga com a sociedade civil, com o poder público e com os meios de comunicação ao reafirmar que a intolerância religiosa é crime e que os terreiros são espaços de acolhimento, memória ancestral, produção cultural e promoção social.
Com o apoio de instituições como a Onira Editora, a Rádio Tropical Web Brasil, a Diversidade Religiosa do Rio de Janeiro, o Ministério da Igualdade Racial, além de coletivos e inúmeras casas religiosas, o manifesto reforça que a luta contra a intolerância não é isolada. Ela é coletiva e atravessa a fé, a cultura, a política e a comunicação.
Aberto ao público, o ato convida toda a população a estar presente na Praça Hermógenes Freire da Costa, neste domingo, às 16h, não apenas como espectadores, mas como participantes de um momento histórico de reflexão, respeito e compromisso com a diversidade religiosa.
Quando tentam destruir um terreiro, não atingem apenas paredes. Tentam apagar histórias, interromper continuidades e negar existências. O Manifesto Alada Méèjí afirma que, onde houve ataque, haverá presença. Onde tentaram silenciar, haverá axé em movimento.
Deus é único, e também é amor. É em nome desse amor que almejamos que ninguém seja perseguido por orar de forma diferente e que nenhuma fé seja tratada como ameaça. Nossos Terreiros são espaços sagrados que existem para acolher, cuidar e transformar vidas, assim como qualquer templo religioso. Atacá-los não é ferir apenas paredes ou símbolos, é ferir pessoas e o próprio princípio do amor a Deus. Que haja liberdade para professar a fé e justiça para reparar as dores causadas, para que o caminho da violência dê lugar ao diálogo, à consciência e à paz.


