Em maio de 2017, viralizou nas redes sociais uma foto de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, pilotando um drone do alto de uma laje na Cidade Alta, na Zona Norte do Rio. Fundador do Complexo de Israel, subfacção do Terceiro Comando Puro (TCP), foi ele quem introduziu aeronaves não tripuladas para demarcar territórios e vigiar rivais e a polícia — prática depois adotada por Walace Trindade de Brito, o Lacoste, chefe do TCP no Morro da Serrinha, em Madureira.
Peixão e Lacoste são os personagens desta segunda reportagem da série “Os donos do crime”, nesta terça-feira, dedicada a mostrar quem são os criminosos que aterrorizam o Rio à frente da violência do tráfico, das milícias, dos bandos de matadores de aluguel e do jogo do bicho.Os dois são os únicos integrantes do TCP no estado incluídos na lista de procurados do Ministério da Justiça.
Nove anos depois, os drones se tornaram uma das maiores preocupações das forças policiais, agora usados pelo crime organizado também para transportar bombas e armas. O caso mais grave foi a megaoperação de 28 de outubro do ano passado nos complexos da Penha e do Alemão, em que 122 pessoas morreram, entre elas cinco agentes, com registro de bombas lançadas por aeronaves não tripuladas contra a polícia.
O Complexo de Israel, dominado por Peixão, é um conjunto de cinco favelas na Zona Norte controlado por um exército armado com fuzis e drones. O traficante se declara evangélico e acumula denúncias de intolerância religiosa, com relatos de destruição de terreiros e proibição de roupas brancas. Seu nome passou a ser citado no debate sobre classificar facções como organizações terroristas após ser apontado como mandante de um ataque a tiros que deixou três mortos na Avenida Brasil, em outubro de 2024. Peixão tem 79 anotações criminais, nove mandados de prisão e nunbca foi preso.
Já Lacoste comanda território menor, na Serrinha, mas trava disputas sangrentas com o Comando Vermelho e também usa drones para monitorar a polícia. Com 89 anotações criminais e 16 mandados em aberto, integra um conselho criado nos moldes do que existe no CV, na tentativa de superar a desvantagem estratégica do TCP pela falta de comunicação centralizada.
A resposta da segurança pública divide opiniões. O secretário de Segurança Pública, Victor César dos Santos, pondera que antidrones trariam riscos à população:
— Abatido, o equipamento cairia em áreas densamente povoadas.
Em sua opinião, a solução seriam os “drones caçadores”, que rastreiam e capturam o equipamento inimigo.
O delegado Fabrício Oliveira, coordenador da Core, sustenta que as polícias precisam ter antidrones para casos excepcionais:
— Diante da atuação de organizações criminosas ultraviolentas, o emprego de drones táticos armados, inclusive com explosivos, precisa ser debatido como alternativa operacional em situações em que o risco de perda de vidas policiais e inocentes seja excessivamente elevado. O Estado também deve dispor de tecnologia e equipamentos de ponta capazes de neutralizar e impedir o uso de drones por criminosos.
Para o professor da UFF Daniel Hirata, o cenário lembra a entrada dos fuzis no Rio, no fim da década de 1980.
—A chegada dos fuzis mudou o patamar dos confrontos no Rio. Com os drones, a tendência é a mesma. É fundamental agir agora para impedir essa escalada — afirma o pesquisador, que defende uma resposta dupla: aquisição imediata de antidrones combinada a medidas estruturais, como marco legal e investigação da cadeia de fornecimento.
A dificuldade de responsabilizar quem está por trás dessa rede ficou evidente em decisão recente. No dia 6, a juíza federal substituta Caroline Vieira Figueiredo, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, condenou Everson Vieira Francesquet a seis anos e cinco meses de reclusão por integrar o TCP, mas absolveu Peixão por insuficiência de provas. Francesquet foi preso em julho de 2024 ao retirar nos Correios uma encomenda vinda da China com um “fuzil antidrone”.
A análise do celular de Francesquet revelou diálogos atribuídos a Peixão, que pedia drones com capacidade de lançar bombas, fuzis e chips estrangeiros. “Vamos comprar o drone e o localizador de drone, e a tua bazuca (fuzil antidrone) quando chegar também”, escreveu o chefe do TCP em uma das mensagens.
Para a juíza, embora seja “muito provável” que Peixão fosse o destinatário do equipamento, não há prova de que ele tenha financiado aquela importação específica. Cabe recurso.
Procurados, os advogados de Francesquet e Peixão não retornaram.





