Série de reportagens dominicais do EXTRA, Conexões do Crime, mostra ligações entre criminosos do Rio de Janeiro e de outros estados do país
Conexões do crime: série do EXTRA aborda origem e consequências da expansão do Comando Vermelho pelo país — Foto: Design: Toni Azevedo Os outros estados alvos das disputas entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro são Bahia e Acre. O EXTRA tentou entrevistas com representantes da Polícia Civil e do Ministério Público baianos, mas não conseguiu contato. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do estado afirmou que as autoridades “não expõem simbologias e siglas e também não divulgam nomes de chefes e de facções, evitando dar publicidade aos grupos criminosos”. No entanto, destacaram que a atuação de organizações fluminenses é investigada pelas forças de segurança da Bahia e que as apreensões de fuzis aumentaram quase 300%, de 2022 a 2024, quando foram recuperadas 22 e 86 unidades, respectivamente. Somente este ano, 114 foram apreendidos, diz a pasta.
Apesar disso, relatos demonstram que o TCP tem estreitado laços com a facção local Bonde do Maluco para frear o avanço do CV na Bahia. Pichações espalhadas por bairros da capital exemplificam a união: “BDM/TCP; Tudo três (numeral da facção)”. A rivalidade entre os grupos tem elevado o nível de violência no estado, principalmente com a morte de jovens — em 2023, a Bahia ocupava o segundo lugar no ranking desses homicídios, segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Pichações sendo apagadas — Foto: Reprodução Em outubro do ano passado, os irmãos Gustavo e Daniel Natividade, de 24 e 15 anos, percussionistas do bloco afro Malê Debalê, foram mortos a tiros em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. À época, a Polícia Civil baiana investigava se eles haviam sido confundidos com traficantes devido a fotos em que apareciam fazendo sinais usados por uma facção.
No Acre, o avanço do TCP aconteceu depois da chegada ao Rio, no ano passado, do traficante Jeremias Lima de Souza, um dos fundadores da facção local Bonde dos 13. Com ele, também chegou Laurisley Fideles Mariano, o Arrascaeta. Os dois foram abrigados por traficantes do Morro da Serrinha, na Zona Norte do Rio, onde tiveram contato com as doutrinas de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do tráfico no Complexo de Israel, conhecido pelo fundamentalismo religioso.
Marcas do crime na parede — Foto: Reprodução Da comunidade carioca, eles passaram a exportar práticas comuns do TCP para o Acre, como a cobrança de taxas a moradores e comerciantes e a imposição de compra de produtos apenas de lugares determinados. Jeremias foi assassinado em dezembro de 2024, depois de voltar ao estado para tentar matar um rival. Arrascaeta assumiu o comando do grupo, mas foi preso na Serrinha em julho deste ano pela Polícia Militar do Rio.
— O rival de Jeremias era o outro fundador do Bonde dos 13, que foi preso este ano. Agora, essa facção está enfraquecida por aqui, o que tem freado também a atuação do TCP, principalmente em confrontos com o Comando Vermelho, facção hegemônica no Acre. O que a gente percebe é que as facções fluminenses vêm para cá e implementam o domínio territorial, bem mais lucrativo do que o tráfico de drogas. Eles, então, fazem extorsões, assumem o controle de serviços essenciais, como internet, e lavam dinheiro em empresas. A gente tem investido muito no monitoramento desses grupos para impedir que o cenário do Sudeste se repita — diz Alcino Sousa Jr., coordenador da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Acre.
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