Três cidades da Baixada Fluminense concentram, entre os municípios com mais de cem mil habitantes, as maiores proporções de moradores que levam mais de duas horas para chegar ao trabalho. Queimados é a primeiro colocada, com 12,5% da população nessa situação. Em seguida, aparecem Nova Iguaçu (11,8%) e Belford Roxo (10,8%) — veja a lista completa abaixo. Os resultados foram obtidos por técnicos do IBGE e enviados ao Corre de Cria, a partir de cruzamentos feitos com dados do Censo de 2022.
Os três municípios do Rio ficam à frente até de cidades da Região Metropolitana de São Paulo. Apesar de as distâncias entre os municípios dos dois estados e suas respectivas capitais serem semelhantes — de 38km a 57km, no caso da Baixada Fluminense, e de 45km a 51km, entre as cidades paulistas, segundo o Google Maps —, o tempo de deslocamento é muito maior para os moradores do Rio. Raphael Rocha, analista do IBGE, aponta que essa diferença tem relação direta com a cobertura das redes de transporte:
— São Paulo tem uma capilaridade na rede de transporte maior do que o Rio. O metrô no Rio, por exemplo, não vai para a Baixada Fluminense.
Moradora da cidade com o pior tempo de deslocamento do país, a estudante de Filosofia Maria Clara Salvador percorre diariamente, há quatro anos, o trajeto de sua casa, em Queimados, até a Uerj, no Maracanã. São cerca de 20 horas semanais dentro do transporte público, com um gasto médio de R$ 300 por mês com passagens. Maria conta que a demora se deve não só pelo trânsito, mas também pelo tempo de espera e pelos atrasos de ônibus e trens:
— Se o transporte atrasa, o tempo de espera fica irregular. Tenho que planejar como chegar da melhor maneira.
Considerando os moradores que levam mais de uma hora para chegar ao trabalho, os dados do IBGE apontam que três das dez cidades com maiores proporções estão na Baixada Fluminense. Belford Roxo aparece em segundo lugar, com 42,8% dos habitantes enfrentando esse tempo de deslocamento. Queimados está em sexto, com 39,8% da população, e Nova Iguaçu em nono, com 38,7%.
Pesquisa acompanhou moradores por um mês
Maria Clara Salvador participou do relatório “De olho no transporte”, da Casa Fluminense, que acompanhou por um mês a rotina de deslocamento de quatro moradores do Rio. A estudante compartilhava localização, fotos e mensagens com a equipe da pesquisa.
Luize Sampaio, coordenadora da Casa Fluminense, diz que os participantes apontaram gastos maiores com a separação dos cartões de transporte Jaé e Riocard.
— Quem é de fora da cidade do Rio ficou sem a opção de fazer a integração das tarifas — afirma a especialista.
A insegurança também pesa na rotina de quem depende diariamente dos trens e ônibus. Para mulheres, especialmente jovens e negras, o trajeto pode se tornar ainda mais vulnerável.
Maria relata que episódios de assédio marcaram sua experiência no transporte público:
— Eu já passei importunação sexual no trem. E hoje eu só vou junto com amigos para a estação. Eu evito pegar trem sozinha — lamenta.
Outro ponto que ficou evidente no estudo foi a falta de estrutura dos trens.
— Na estação de Queimados, o espaço entre a plataforma e o vagão é tão grande que cabe uma pessoa. Já vi gente quase caindo nesses vãos — conta Maria Clara.
Impacto ambiental
O relatório De Olho no Transporte surgiu ainda durante a pandemia do coronavírus, em 2020, quando a redução da frota de ônibus coincidiu com um período em que a população precisava justamente de mais espaço e segurança para circular.
Nesta edição, o estudo analisa como as emissões dos transportes influenciam a qualidade de vida e a saúde dos passageiros, reforçando que o custo do deslocamento não está apenas na tarifa:
— O transporte está caro não só no preço da passagem, mas na saúde dos passageiros. A cada queima de combustíveis, poeira urbana, processos industriais e queimada, um conjunto de micropartículas sólidas e líquidas, chamadas de material particulado (MP), são suspensas no ar — aponta Luize Sampaio, coordenadora da Casa Fluminense.
A Região Metropolitana do Rio — que já registra o maior tempo médio de deslocamento do país — também concentra uma parcela expressiva da poluição gerada pelo setor. Segundo o relatório, a região é responsável por cerca de 10% das emissões desse tipo de poluente no território nacional.
Luize destaca que esse cenário é resultado de um modelo de mobilidade que privilegia os ônibus, modal mais poluente, enquanto deixa de investir em alternativas mais limpas:
— A gente vive num país que aposta no transporte público rodoviário, que é o que mais polui, e não aposta nos modais ferroviários. E ainda temos o trem e o metrô mais caros do país.
Medidas possíveis para melhorar os transportes
Enfrentar os problemas de qualidade no transporte passa por um conjunto de medidas. Luize, da Casa Fluminense, aponta uma delas: tarifa zero (gratuidade no transporte).
— Por enquanto, a tarifa zero está em apenas nove dos 22 municípios do Grande Rio. Ampliar esse programa vai beneficiar quem mais passa tempo nos transportes — afirma.
Outro gargalo, segundo ela, é a redução da frota de ônibus nos fins de semana.
— Quem deseja visitar um museu no Centro, por exemplo, precisa calcular a hora de voltar para não ficar na rua — diz Luize.
A especialista também questiona as prioridades dos investimentos:
— Estudos apontam que o valor gasto na ligação da Linha 4 do metrô seria suficiente para reformar todas as linhas de trem do estado.


