Na terça-feira passada, Israel Lucas do Nascimento de Oliveira Madalena, de 29 anos, estava em casa com a família, na Vila Kennedy, quando foi avisado que seu carro havia sido atingido durante confronto entre milicianos e traficantes. Um veículo que costuma funcionar como camarim para Rael Luca, como é mais conhecido, se transformar no Palhaço do Trem, que há 12 anos se dedica a alegrar crianças em tratamento no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, faz animações para a garotada na Baixada Fluminense e, é claro, se apresenta como palhaço nos ramais da Supervia.
A cena do carro destruído pelos tiros viralizou na internet, e Rael conseguiu ajuda para para fazer o conserto. Hoje, em agradecimento, ele fez a alegria de dezenas de crianças na Casa da Dida, um centro espírita no bairro de Miguel Couto, Nova Iguaçu. Mas precisou ir de trem, já que o automóvel ainda está na oficina.
— Distribuo doces no Dia das Crianças nessa comunidade no dia a dia desde o fim da pandemia. Deus está ajudando e comecei a fechar contratos depois do vídeo que viralizou. Eu dependo do carro para trabalhar e, nesse mês das crianças, ele é ainda mais urgente porque eu fico muito atarefado — contou.
Quem o avisou sobre o carro foi um vizinho, que o chamou desesperado da rua. Rael desceu e, de imediato, começou a gravar um vídeo relatando o estado do carro. O registro foi compartilhado nas redes sociais, e mais de 200 mil pessoas já o assistiram. Com a situação, o rapaz saltou de pouco mais de 1,5 mil seguidores para cerca de 50 mil.
A rápida circulação do vídeo possibilitou que ele conseguisse ajuda de mecânicos que se comprometeram a consertar o Fiat Linea. A “alta” do veículo continua incerta, mas os vidros e marcas de bala já foram removidos.
— Eu sempre fiz esse trabalho sozinho. Ver essa quantidade de apoio, de mensagens de carinho, de força, desperta um amor muito grande em mim. Tudo o que eu faço pelas crianças é por amor, não ganho nada pelas visitas. É pelo prazer de chamar de família aqueles que não são e poder ser uma referência.
A primeira experiência como palhaço começou na igreja, quando Rael era “bem novinho”, como se descreveu. O encantamento foi imediato, sensação que ele atribui a um dom, talvez, “divino”.
O início das visitas no hospital público de Realengo coincide com um período desafiador na família de Rael. Em 2013, nasceu seu primogênito — os filhos hoje de 8 e 12 anos —, diagnosticado com uma condição pulmonar que o deixou debilitado ainda bebê. No ano seguinte, a criança teve piora no quadro clínico e precisou ser levado à emergência. Parte do tratamento aconteceu no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, depois, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, ligado à UFRJ. Não havia leito para a criança no Albert Schweitzer.
— Me dói só de lembrar. Ele perdeu muito peso, precisou de um longo acompanhamento lá no fundão. Quando a gente vê um filho sair do leito… não tem preço que pague uma sensação dessa — completou, contando que atualmente, o menino faz uso de bombinhas como reforço pulmonar.
Na quinta-feira como faz às vésperas do Dia das Criança, Rael animou crianças internadas no CTI e na ala pediátrica do Albert Schweitzer:
— São pacientes frágeis que necessitam de carinho e atenção.
Além da atuação no hospital e no festejo de Dia das Crianças, Rael aparece como palhaço nos trens da Supervia, principalmente nos ramais de Japeri e Santa Cruz. A alegria dele, como destaca, é fazer o dia das famílias, como conseguia o humorista Paulo Gustavo, uma de suas grandes inspirações. Nas redes sociais, inclusive, ele se apresenta como “palhaço dos trens”.
— Eu sou artista de rua. Faço piadas, importante é fazer as pessoas rirem. “Rir é um ato de resistência”, já dizia o Paulo Gustavo. As “coroas” me adoram, se divertem muito com as bobeiras que eu falo — conta.


