A Liga RJ, representante das agremiações da Série Ouro do Carnaval do Rio, acionou a Riotur para mediar questões administrativas e operacionais relacionadas à organização e credenciamento no Sambódromo a menos de um mês dos desfiles. A medida ocorreu nesta quinta-feira, após a entidade alegar divergências e falta de diálogo com a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), responsável pelo Grupo Especial.
De acordo com os dirigentes da Liga RJ, episódios nos últimos anos já apontavam descompasso entre as duas entidades. Em uma situação, o desfile da Série Ouro chegou a começar sem que os coletes das pessoas credenciadas — que seriam usados em ambas as divisões — tivessem sido entregues. Outro ponto mencionado é que a Unidos do Porto da Pedra, escola do grupo, solicitou formalmente a aquisição de um camarote no Sambódromo, mas teve seu pedido negado sem explicações. Além desses, outros pontos também foram registrados.
— São problemas crônicos entre as instituições, mas tentávamos manter um bom relacionamento. Só que agora chegou na gota d’água e compromete o próprio espetáculo. Não é justo nossas escolas passarem por dificuldades, porque ajudamos a fazer o maior espetáculo da Terra. Queremos um tratamento igualitário — afirmou Hugo Junior, presidente da Liga RJ.
Nesta quarta-feira, os presidentes e representantes das escolas da Série Ouro se reuniram em plenária e definiram um posicionamento coletivo sobre a gestão da Marquês de Sapucaí. A decisão incluiu a formalização de um documento entregue à Riotur no dia seguinte. O órgão do poder público, responsável pela concessão do espaço, recebeu o texto que solicita critérios claros e igualitários para o uso do equipamento através do presidente Bernardo Fellows.
O que reclama a Liga RJ
Durante o ato realizado nesta quinta-feira, na sede da Riotur, na Cidade Nova, no Centro do Rio, a Liga RJ protocolou um documento destacando os seguintes pontos de insatisfação:
Impedimentos ao credenciamento de escolas, profissionais e equipes de apoio para o Carnaval 2026, comprometendo o planejamento das agremiações;Restrição de acesso ao Sambódromo para dirigentes e sambistas, enquanto pessoas sem vínculo institucional recebem credenciais;Denúncias de perseguição, intimidação e retaliações institucionais, incluindo relatos de dirigentes da escola Unidos do Porto da Pedra;Uso desigual do Sambódromo, com exploração comercial de camarotes, publicidade, patrocínios e ativações durante os dias da Série Ouro sem repasse financeiro às escolas;Exclusividade comercial em determinados produtos, como a imposição de uma única marca de cerveja e práticas de “venda casada” nos camarotes;Negativa de acesso a camarotes para algumas agremiações, mesmo quando dispostas a arcar com os custos;Falta de garantias para ensaios técnicos, que sofreram restrições e comprometeram a preparação das escolas e suas comunidades. A Liga RJ também questiona cláusulas do contrato entre Riotur e Liesa, alegando possíveis violações aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade e isonomia. Além disso, afirma que “o Sambódromo é um bem público municipal, que não pode ser administrado como propriedade privada”.
Em nota, a entidade disse ter buscado anteriormente o diálogo institucional com a atual diretoria da Liesa, sem sucesso:
“A Liga RJ esclarece que sempre buscou o diálogo institucional com a atual diretoria da Liesa, com o objetivo de construir soluções consensuais e preservar a harmonia entre as entidades envolvidas.”
O comunicado acrescenta que, após o discurso do presidente de Honra, Fábio Montibelo, em dezembro de 2025, no qual foram relatadas situações vivenciadas pela agremiação, as relações institucionais passaram a se tornar distantes:
“Diante da ausência de diálogo efetivo e da adoção de medidas consideradas autoritárias, não restou outra alternativa às agremiações da Série Ouro senão recorrer ao órgão público competente, que é a Riotur, responsável pela gestão do Carnaval e pela administração do Sambódromo.”
A Liga RJ reforçou que sua iniciativa não tem caráter de confronto, mas sim de busca por mediação institucional, legalidade e equilíbrio, para preservar o Carnaval, suas escolas, suas comunidades e o interesse público.
O que diz a Liesa
Segundo a Liga Independente das Escolas de Samba, a entidade “nunca foi procurada oficialmente para tratar das questões levantadas publicamente” pela Liga RJ. Em nota, a Liesa afirmou atuar “sem fins lucrativos, com transparência, legalidade e isonomia, e que permanece aberta ao diálogo institucional”.
A Riotur, por sua vez, informou que o presidente Bernardo Fellows recebeu os representantes da Liga RJ na tarde desta quinta-feira. Após ouvir os pleitos apresentados, convocou ambas as ligas para uma reunião conjunta.
Em nota, afirmou que a convocação tem “o objetivo de tratar os temas em parceria, prezando pelo bom andamento do Carnaval 2026, com equilíbrio, legalidade e respeito às escolas de samba e às suas comunidades”.
Ensaios técnicos e desfiles
Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial – Sambodromo — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo Os ensaios técnicos das escolas da Série Ouro estão programados para este fim de semana, de sexta-feira, dia 23 a domingo, dia 25, na Marquês de Sapucaí, enquanto os desfiles oficiais ocorrerão nos dias 13 e 14 de fevereiro.
Os ensaios técnicos das escolas do Grupo Especial estão previstos para 30 e 31 de janeiro, 1, 6, 7 e 8 de fevereiro, com os desfiles oficiais nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro.


