Para muitos tocantinenses, o chamado “Novo Cangaço” é uma expressão conhecida principalmente pelos noticiários. No imaginário popular, o que vem à mente são aquelas imagens impactantes de quadrilhas fortemente armadas, cidades sitiadas e ataques a bancos que parecem acontecer sempre longe.
Para quem veste a farda da Polícia Militar do Tocantins (PMTO), esse cenário deixou de ser apenas notícia há cerca de 15 anos. Tornou-se uma realidade complexa, imprevisível e, muitas vezes, perigosa para quem está na linha de frente do enfrentamento.
Parte dessa realidade também se explica pela posição geográfica do estado. Localizado no coração do Brasil, o Tocantins faz divisa com diversas unidades da federação e possui extensas áreas rurais e estradas vicinais que podem ser utilizadas como corredores de fuga por organizações criminosas interestaduais. Diante da combinação de um território extenso e da ação cada vez mais organizada das quadrilhas, ficou claro que o enfrentamento ao “Novo Cangaço” exigia algo além do policiamento convencional.
Uma polícia que precisou se reinventar
Ao longo de uma década e meia, a PMTO transformou profundamente a forma de planejar e executar suas operações. Inteligência policial, integração entre forças de segurança, logística especializada e treinamento tático passaram a ocupar papel central nas estratégias de enfrentamento.
Essa evolução não aconteceu apenas dentro de salas de planejamento. Ela foi construída, principalmente, no campo, em operações longas, em áreas isoladas e sob pressão constante. Foi nesse ambiente que nasceu uma doutrina operacional própria, desenvolvida a partir das experiências reais vividas pelos policiais tocantinenses.
Jalapão, 2011: o ponto de virada
Um dos episódios mais marcantes dessa trajetória ocorreu em 2011, na região de Mateiros, no Jalapão.
Após um ataque a uma instituição financeira no oeste da Bahia, criminosos fugiram em direção ao território tocantinense. O que se seguiu foi uma das maiores operações policiais já realizadas no estado até então.
Durante vários dias, equipes da Polícia Militar do Tocantins e da Bahia percorreram trilhas, estradas de areia e áreas isoladas do Jalapão em busca dos suspeitos.
Na época, a operação foi coordenada pelo então comandante da Companhia Independente de Operações Especiais (CIOE), Coronel PM Cláudio Thomaz Coêlho de Souza, que hoje atua como Chefe do Estado-Maior da PMTO. Ele lembra que a experiência marcou profundamente a corporação. “Comandar aquela operação foi uma experiência única. Foi a oportunidade de colocar em prática todos os ensinamentos e doutrinas aprendidos nos cursos de operações especiais. O que mais nos marcou foram as adversidades de operar naquele tipo de terreno, vegetação e relevo”, recorda.
A região do Jalapão (onde está localizada a cidade de Mateiros), com suas extensas áreas de cerrado e regiões de difícil acesso, tornou-se um grande desafio logístico. Mais de 70 policiais militares e 25 viaturas participaram da operação, que se estendeu por mais de duas semanas. “Foi uma ocorrência extremamente complexa. Tínhamos policiais de diferentes unidades da PMTO e também da Polícia Militar da Bahia. A logística para manter todos operando por mais de quinze dias no terreno ajudou a consolidar nossa forma de atuar nesse tipo de crime”, explica o coronel.
Operações que consolidaram uma doutrina
Após Mateiros, outras ocorrências importantes contribuíram para consolidar o modelo de atuação da Polícia Militar do Tocantins. Entre elas estão operações em Taguatinga (2014), Pequizeiro (2019), Dois Irmãos (2022) e Canguçu (2023).
Cada uma dessas ações trouxe novos aprendizados e fortaleceu a integração entre unidades especializadas da PMTO, Polícia Civil e forças de segurança de outros estados.
A Operação Canguçu, por exemplo, mobilizou cerca de 350 policiais de cinco estados brasileiros, em uma busca que durou mais de um mês.
O Tenente-Coronel PM Acácio, que participou da operação e atualmente comanda o Batalhão de Polícia de Choque (BPCHOQUE) da PM em Palmas, descreve o episódio como um divisor de águas. “Canguçu foi um marco na minha trajetória profissional. Foi uma operação que exigiu decisões estratégicas e integração entre diversas equipes. Ali não era apenas uma operação policial, era um esforço conjunto para proteger a sociedade”, afirma.
Durante 39 dias de atuação ininterrupta, as equipes enfrentaram terrenos alagados, comunicação limitada, longos deslocamentos e o desgaste físico natural de uma operação prolongada. “Havia pouco tempo para descanso, alimentação irregular e a distância da família. Mas o compromisso com a missão sempre falou mais alto”, lembra.
“Além do treinamento, a confiança entre os policiais faz toda a diferença”
Se para quem planeja a operação o desafio é estratégico, para quem está no terreno cada momento pode representar uma decisão que separa o sucesso do fracasso. O Tenente PM Weber Santos, com 22 anos de carreira na Polícia Militar, participou de algumas das principais ocorrências envolvendo o chamado Novo Cangaço no Tocantins. Entre elas estão a própria Operação Jalapão, em 2011, a ocorrência em Dois Irmãos, em 2022, e a Operação Canguçu, em 2023.
Para ele, atuar na linha de frente exige preparo técnico, mas também equilíbrio emocional. “Atuar nesse tipo de ocorrência é extremamente desafiador. Estamos lidando com organizações criminosas numerosas, altamente estruturadas e com armamento pesado. Cada decisão precisa ser tomada com muita responsabilidade, sempre priorizando a segurança da população e da equipe policial”, explica.
Ele ressalta ainda que o que diferencia esse tipo de crime de outros roubos a banco é justamente o nível de organização e poder de fogo. “Não se trata apenas de um roubo convencional. São ações planejadas, com vários criminosos, veículos de apoio e armamento de grosso calibre. Por isso o enfrentamento exige planejamento, inteligência policial e integração entre diversas forças de segurança”, destaca.
O tenente relembra ainda o que, para ele, foi um dos momentos mais intensos, a Operação Canguçu, em 2023. Naquele dia em específico, a equipe se deparou com um grupo numeroso de criminosos. “Éramos apenas oito policiais diante de mais de vinte criminosos, fortemente armados. O confronto aconteceu a cerca de quinze metros de distância. Foi uma situação extremamente crítica”, relata.
Naquele instante, ele diz que um turbilhão de pensamentos passou pela cabeça. “Entre nós havia policiais com poucos meses de corporação. Eu era o mais antigo da equipe. A responsabilidade de manter todos seguros era enorme.”
Apesar da tensão, a equipe conseguiu reagir e sair do confronto sem baixas. “Naquele momento ficou claro que, além do treinamento, a confiança entre os policiais faz toda a diferença.”
Segurança como compromisso permanente
Ao longo desses 15 anos de enfrentamento ao chamado Novo Cangaço, a experiência acumulada em campo, o investimento em qualificação profissional e o fortalecimento da integração entre forças de segurança consolidaram um novo patamar de atuação para a Polícia Militar do Tocantins.
Para o Comandante-Geral da corporação, Coronel PM Márcio Antônio Barbosa de Mendonça, essa trajetória reflete um processo contínuo de evolução institucional, impulsionado pelo compromisso com a proteção da sociedade tocantinense.
Segundo ele, o enfrentamento a esse tipo de crime exigiu muito mais do que respostas pontuais. “O enfrentamento ao Novo Cangaço exigiu preparo técnico, integração entre forças e investimento contínuo em pessoas. Hoje, a Polícia Militar do Tocantins está mais estratégica, mais preparada e pronta para atuar diante dos cenários mais complexos, sempre com foco na proteção da população e na garantia da ordem pública”, destaca o comandante.
O Comandante cita a Operação Canguçu, como um dos exemplos mais recentes desse amadurecimento operacional. “A Operação Canguçu mostrou a força da integração entre as instituições e a capacidade de resposta da Polícia Militar do Tocantins. Conseguimos quebrar a rota de fuga do grupo criminoso e demonstrar que o nosso estado está preparado para enfrentar organizações altamente estruturadas. Foi uma grande operação que projetou o Tocantins para o cenário nacional no enfrentamento a esse tipo de crime”, destaca.
O coronel também ressalta que o aprendizado construído ao longo das operações não apenas fortaleceu a capacidade de resposta da corporação como também ampliou a confiança da sociedade no trabalho policial. “Seguiremos trabalhando de forma preventiva, inovadora e integrada, porque a segurança da população não é apenas uma missão, mas um compromisso diário da Polícia Militar do Tocantins”, afirma.
Depois de 15 anos enfrentando um dos crimes mais complexos da segurança pública moderna, a corporação segue preparada para os desafios que ainda virão, mantendo o mesmo princípio que guia cada policial em serviço: proteger a vida e garantir a tranquilidade da população tocantinense.
Edição: Luana Barros





