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Brasil

Três em cada quatro moradores de grandes favelas do Rio rejeitam operações policiais, diz pesquisa

Noticias ao Minuto
Ultima atualização: 20/05/2026 às 14:14
Por Noticias ao Minuto
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Três em cada quatro moradores de grandes favelas do Rio rejeitam operações policiais, diz pesquisa
 

(FOLHAPRESS) – Três em cada quatro moradores da Maré, Rocinha, Complexo do Alemão e Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, rejeitam as operações policiais realizadas em seus territórios, segundo pesquisa inédita feita por seis diferentes organizações de favela divulgado nesta quarta-feira (20).

O levantamento, que ouviu 4.080 pessoas presencialmente, aponta ainda que a maioria considera que as ações não melhoram a segurança das famílias e são marcadas por excessos e ilegalidades.

Segundo o estudo “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, 73% dos entrevistados disseram discordar das operações policiais realizadas em suas comunidades, enquanto 25% afirmaram concordar com as ações. Outros 2% não responderam.

A rejeição aumenta quando os moradores avaliam a forma como as operações são conduzidas atualmente. Ao todo, 92% disseram desaprovar o modelo atual, sendo que 68% afirmaram que as operações “precisam ser realizadas de outra forma” e 24% disseram que “não deveriam ser realizadas operações policiais em favelas”.

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A pesquisa foi conduzida pelas organizações Redes da Maré, Fala Roça, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Frente Penha e A Rocinha Resiste, com apoio de instituições acadêmicas e organizações ligadas à segurança pública.

As entrevistas foram realizadas entre os dias 13 e 31 de janeiro deste ano nos quatro territórios, que concentram parte significativa das operações policiais no Rio e somam cerca de 21% da população favelada da cidade.

O levantamento surgiu após a operação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, que terminou com 122 mortos e se tornou a ação mais letal do Brasil.

Na época, pesquisa Datafolha feita por telefone com moradores da capital e da região metropolitana apontou que 57% consideravam a operação bem-sucedida. O resultado provocou incômodo entre organizações de favela, que decidiram realizar um levantamento voltado especificamente aos moradores diretamente afetados pelas operações.

“A gente viu uma narrativa muito homogênea de aprovação dessas ações, mas sem ouvir quem vive essa realidade cotidianamente”, afirma Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e uma das coordenadoras da pesquisa. “A proposta era justamente trazer o olhar de quem está dentro desses territórios.”

Além de ter sido idealizado por organizações que atuam nas comunidades, o estudo teve o trabalho de campo realizado por pesquisadores moradores das próprias favelas.

Antes da etapa quantitativa, os organizadores fizeram oito grupos focais com moradores para formular as perguntas da pesquisa e tentar reduzir vieses na elaboração do questionário.

“A gente queria entender como as pessoas percebiam essas operações antes de formular as perguntas. Havia uma preocupação de construir uma pesquisa qualificada e que refletisse essa experiência cotidiana”, diz Eliana.

MORADORES RELATAM MEDO DA POLÍCIA DURANTE OPERAÇÕES

Os dados apontam forte percepção de violência estatal nas operações. Ao todo, 91% dos entrevistados afirmaram que a polícia comete excessos e ilegalidades durante as ações, percepção compartilhada inclusive por moradores favoráveis às operações. Entre os que apoiam as ações policiais, 85% também disseram identificar abusos.

A rejeição à violência aparece de forma ampla. Apenas 3% concordaram com a afirmação de que “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar”. Já 41% disseram que “nunca está certo matar durante as operações”, enquanto 54% afirmaram que as mortes devem ser evitadas, embora possam ocorrer em algumas situações.

Os excessos cometidos por policiais foram considerados inaceitáveis por 90% dos entrevistados. Mesmo entre os moradores favoráveis às operações, 74% afirmaram rejeitar práticas ilegais durante as ações.

A pesquisa também mostra que 95% dos entrevistados avaliam que as operações não aumentam a segurança das famílias. Apenas 4% disseram perceber melhora.

Segundo o levantamento, 93% dos moradores afirmaram já ter vivenciado diretamente operações policiais ou ter familiares afetados por elas. Restrição de circulação, invasão de domicílios, fechamento de escolas, tiroteios e balas perdidas aparecem entre os impactos mais relatados.

O estudo aponta ainda que 78% dos moradores dizem sentir medo da polícia durante as operações. O índice é maior do que o percentual dos que afirmaram sentir medo de grupos armados presentes nos territórios, que ficou em 41%.

Mesmo entre moradores favoráveis às operações, o medo da polícia aparece acima do registrado em relação aos grupos armados: 59% disseram sentir medo das forças policiais, ante 53% em relação às organizações criminosas.

“A gente vive entre duas violências”, resumiu um dos participantes dos grupos focais realizados durante a pesquisa.

Para a diretora Eliana Sousa Silva, o resultado revela uma contradição na atual política de segurança pública. “O Estado diz que atua para proteger os moradores, mas as pessoas relatam medo justamente da presença policial. Isso é muito contraditório”, afirma.

JOVENS E PESSOAS PRETAS CONCENTRAM MAIOR REJEIÇÃO

A discordância das operações é mais elevada entre jovens e pessoas pretas. Entre moradores de 18 a 29 anos, 79% disseram rejeitar as ações policiais. Entre pessoas pretas, o índice chega a 81%.

A pesquisa também aponta percepção majoritária de racismo nas operações. Ao todo, 61% dos entrevistados disseram acreditar que há racismo na forma como as ações policiais são planejadas e executadas nas favelas. Outros 13% responderam “às vezes”.

Para os organizadores, os dados refletem a maior exposição desses grupos à violência policial e aos processos de criminalização. “Existe uma representação estereotipada do jovem negro da favela como suspeito permanente”, afirma Eliana.

O levantamento mostra ainda ampla rejeição a operações policiais com alto número de mortos. Quando perguntados se ações como a realizada no Alemão e na Penha, com 122 mortos, deveriam voltar a acontecer, 85% responderam que não. Outros 7% disseram que “às vezes”, e 7% afirmaram que sim.

Os pesquisadores afirmam que os resultados não devem ser interpretados como apoio aos grupos armados que atuam nas comunidades.

“O morador não coaduna com a atividade ilícita. O que a pesquisa mostra é que existe uma diferença entre o morador e as redes criminosas, algo que muitas vezes desaparece no debate público”, diz a coordenadora.

A divulgação da pesquisa ocorre em meio ao debate eleitoral no estado, em um cenário em que setores políticos defendem o endurecimento das operações policiais em favelas.

Segundo os organizadores, a intenção é pressionar pela discussão de alternativas ao modelo de segurança baseado em confronto armado. “Operação policial não pode ser a única forma da polícia atuar dentro da favela”, afirma Eliana.

Como moradores de grandes favelas do Rio veem as operações policiais (Pesquisa ouviu 4.080 moradores da Maré, Rocinha, Complexo do Alemão e Complexo da Penha entre janeiro de 2026):

– 73% rejeitam as operações policiais em seus territórios
– 92% desaprovam a forma como elas são realizadas hoje
– 95% dizem que elas não melhoram a segurança das famílias
– 91% afirmam que há excessos e ilegalidades da polícia
– 78% dizem sentir medo da polícia durante as operações
– 85% rejeitam operações como a da Penha e Alemão, em 2025, com 122 mortos

Fonte: Pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”

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