Um dos alvos das sanções anunciadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos contra cidadãos e empresas brasileiras é conhecido das autoridades nacionais. Victor Henrique de Oliveira Shimada, de 41 anos, foi condenado por integrar um esquema milionário de fraude eletrônica e lavagem de dinheiro contra o antigo Banco Votorantim, hoje BV. Além disso, ele é réu no caso Vai de Bet e Corinthians.
Apesar da extensa ficha criminal, Shimada e as empresas dele não têm vínculo com o Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, um dos grandes especialistas brasileiros no tema. O elo com a facção paulista foi uma das justificativas dadas pelo governo americano para a sanção.
— Em São Paulo, não há nenhum registro sobre isso. Ele foi denunciado por lavagem de dinheiro por ter intermediado o envio de recursos irregulares naquele caso da Vai de Bet. E responde a outro processo na Justiça Federal por lavagem. Mas não há notícia de envolvimento com o PCC — disse Gakiya. — Agora, não temos informação se alguma investigação do FBI e do DOJ na Flórida apontaram alguma ligação. Essa classificação é unilateral pelo Departamento do Tesouro Norte Americano, não fomos consultados.
Shimada foi condenado no âmbito da operação Retorno Velado, da Polícia Federal (PF), deflagrada em dezembro de 2024. Ele foi acusado de participar de um esquema que realizou 2.799 transferências fraudulentas via Pix em apenas um final de semana, em agosto de 2024, totalizando R$ 35 milhões desviados do BV.
Os valores foram enviados para a conta da empresa de Shimada, a Victory Trading, também alvo do Departamento do Tesouro Americano, e rapidamente convertidos em criptomoedas para dificultar o rastreamento.
O juiz Massimo Palazzolo, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, condenou Shimada pelo crime de lavagem de dinheiro. O magistrado considerou que, como operador experiente de criptoativos, o réu agiu com dolo ao aceitar “valores vultosos e atípicos” em um domingo à noite sem identificar adequadamente a origem e os beneficiários. A pena foi fixada em cinco anos de reclusão em regime semiaberto. Shimada, entretanto, foi absolvido do crime de furto qualificado pela suposta invasão hacker ao sistema do banco. O magistrado entendeu que não havia provas de que Shimada participou diretamente da execução da fraude eletrônica.
Shimada chegou a ser preso preventivamente no âmbito da operação, em dezembro de 2024, mas foi solto no mês seguinte, mediante habeas corpus, sob a condição de pagamento de fiança. Atualmente, ele já não usa mais tornozeleira eletrônica. Está apenas proibido de se ausentar do país.
Em nota, o BV, antigo Banco Votorantim, afirmou que adotou imediatamente as medidas cabíveis ao identificar movimentações irregulares no âmbito dos serviços de Banking as a Service (BaaS), comunicando os fatos às autoridades competentes e colaborando com as investigações que culminaram com a condenação do sancionado. “Vale destacar que na colaboração com as autoridades competentes o BV atuou como assistente de acusação na ação penal”.
Sport Club Corinthians Paulista
Em julho do ano passado, o Ministério Público denunciou seis suspeitos de integrarem um esquema de corrupção, furto e lavagem de dinheiro dentro da gestão do Sport Club Corinthians Paulista. Entre os alvos, estavam integrantes do núcleo diretivo do clube e do núcleo de operadores financeiros.
Shimada é apontado como integrante do núcleo de intermediação e operação ao lado de outros dois réus: Alex Fernando André, conhecido como Alex Cassundé, e Ulisses de Souza Jorge.
Segundo a denúncia, o Corinthians firmou um contrato de patrocínio de R$ 360 milhões com a Vai de Bet, empresa de apostas esportivas, em janeiro de 2024. Embora a diretoria do time tenha afirmado que não houve intermediários, as investigações revelaram que a Rede Social Media Design, de Alex Cassundé, atuou como uma empresa de fachada na negociação, e alterou seu objeto social para incluir a atividade de “intermediação” apenas 14 dias após a assinatura do contrato.
O verdadeiro intermediador, Antônio Pereira dos Santos, o Toninho Duettos, foi subitamente afastado para que o grupo pudesse desviar as comissões, projetadas em R$ 25,2 milhões ao longo de três anos. Para ocultar o desvio, os envolvidos estruturaram uma complexa rede de lavagem de dinheiro utilizando camadas de empresas e “laranjas” para dificultar o rastreio.
Após o Corinthians pagar R$ 1,4 milhão em comissões à Rede Social, parte do dinheiro foi repassado à Neoway, empresa cuja sócia formal era uma beneficiária do Auxílio-Brasil, hoje Bolsa Família, sem capacidade financeira para tais movimentações. Da Neoway, os valores seguiam para a Wave Intermediação de Negócios, outra empresa fictícia cujo sócio nominal era um motoboy, mas que funcionava como um braço operacional da empresa Victory Trading, de propriedade de Shimada.
A etapa final do esquema direcionava os recursos subtraídos para a conta da UJ Football Talent, agência de jogadores que recebeu transferências via PIX tanto da Wave quanto da Victory.
Segundo a denúncia do Gaeco, Shimada atuou como o operador financeiro que fez a mentoria da utilização dessas empresas de fachada para branquear os valores. O objetivo da associação criminosa era utilizar o patrimônio do clube para quitar dívidas financeiras pendentes da campanha de Augusto Melo à presidência do time e promover o enriquecimento pessoal dos denunciados às custas da instituição.
Shimada foi denunciado por lavagem de capitais. O Ministério Público requereu que os denunciados sejam condenados a pagar, no mínimo, R$ 40 milhões a título de indenização ao Corinthians.
Sanções
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira sanções contra dois cidadãos brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa por supostos vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC), apontado pelo governo americano como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental.
Segundo o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês), o PCC representa uma ameaça crescente à segurança nacional dos Estados Unidos por atuar na lavagem de dinheiro do tráfico de drogas em território americano, especialmente na Flórida, além de manter operações em países como Reino Unido, Turquia e Japão. O departamento também considera a facção ‘a maior organização criminosa transnacional da América Latina’.
Além de Shimada, foi sancionada Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Já entre as empresas atingidas pela medida estão as brasileiras Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. e Wave Construções Inteligentes Ltda. Além da portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda.
Segundo o Tesouro americano, Shimada liderava o núcleo da organização baseado em São Paulo e fazia a ligação entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. O órgão afirma que ele e sua estrutura movimentaram mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos gerados em diversas cidades dos Estados Unidos, utilizando criptomoedas para enviar o dinheiro de volta ao Brasil em benefício da facção.
O comunicado também afirma que Shimada esteve envolvido em outros crimes financeiros. Em janeiro de 2025, segundo o governo americano, ele chegou a cumprir prisão domiciliar no Brasil após uma de suas empresas, a Victory Trading, ter sido usada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária.
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é descrita como parente e colaboradora próxima de Shimada. Segundo o Tesouro, ela atuava como secretária do empresário e intermediava a coleta de grandes quantias, prestando apoio logístico às operações de lavagem.
As autoridades americanas afirmam que Shimada utilizava uma rede de empresas para ocultar a origem dos recursos enviados dos Estados Unidos ao Brasil. Além da Victory Trading, a investigação cita a Pixwave, a Wave Construções Inteligentes e a empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal, que, segundo o OFAC, eram controladas direta ou indiretamente pelo empresário.
A investigação que resultou nas sanções foi conduzida por uma força-tarefa do Departamento de Segurança Interna dos EUA, com participação do FBI e do Departamento de Justiça. Em janeiro deste ano, seis integrantes do núcleo da organização na Flórida foram presos e denunciados por lavagem de dinheiro. As sanções anunciadas agora têm como alvo o braço da operação sediado em São Paulo.
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