MATHEUS ROCHA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Gilberto Gil era um homem desterrado nos primeiros anos da década de 1970. Após ser preso pela ditadura militar em 1968, o cantor se exilou em Londres com Caetano Veloso, outro expoente da tropicália detido no mesmo período. Na capital inglesa, o músico entrou em contato com uma cena artística efervescente.
O músico emergiu renovado desse caldo cultural. Em Londres, comprou a sua primeira guitarra, uma Gibson 335, instrumento com o qual aprofundou a mistura do rock anglo-saxão com os acordes da música brasileira. Como canta em “Back to Bahia”, ir embora foi necessário para que ele pudesse voltar. Não à toa, o musical “Gil – Andar com Fé” usa o exílio como ponto de partida para contar as origens de um dos nomes mais luminosos da música brasileira.
Dirigido por Miguel Falabella e estrelado por Gui Ventura, o espetáculo estreia nesta quinta-feira, dia 20, no Teatro Santander, na capital paulista, para celebrar não apenas um homem, mas o espírito de um tempo.
“Conceitualmente, a gente precisava homenagear uma geração, um movimento no final dos anos 1960 que veio com o pé na porta e nos salvou de uma caretice absoluta, da qual não haveria saída”, afirma Falabella. “Não é à toa que eles foram massacrados.”
A homenagem a essa geração pode ser sentida pela presença em cena dos intérpretes de artistas como Gal Costa, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ao lado deles, Gil formou o grupo Doces Bárbaros em 1976.
A cenografia faz referência às vanguardas artísticas que varreram o Brasil a partir dos anos 1950. Há rampas instaladas sobre o palco, elemento cênico que remete à sinuosidade das esculturas de Lygia Clark, e bandeirinhas, das pinturas de Alfredo Volpi. As bandeirinhas ambientam a infância de Gil em Ituaçu, cidade no interior da Bahia, onde o artista deu os primeiros passos na música. Foi lá que ele aprendeu a tocar acordeão, aos 10 anos, influenciado pelo baião de Luiz Gonzaga.
Formado em medicina, o pai do artista deixou Salvador com a família pela dificuldade de exercer o ofício na capital. Na peça, o personagem que vive o pai de Gil atribui os entraves ao racismo.
A questão racial, aliás, reaparece quando a produção mostra uma viagem de Gil para Lagos, na Nigéria, em 1977. À época, ele entrou em contato com o afrobeat de Fela Kuti.
Essa incursão inspirou “Refavela”, disco que incorporou ritmos como reggae e juju music. “Aqui e Agora” e “Ilê Ayê” são algumas das faixas mais conhecidas desse trabalho.
O espetáculo retrata esse mergulho nas culturas negras por meio de um número musical que une canções como “Haiti”, “Ladeira da Preguiça”, “Babá Alapalá” e “Punk da Periferia”.
“Esse segmento é muito bonito porque ele canta esses novos ritmos, essas novas sonoridades”, diz Falabella, para quem o artista faz parte de uma geração que revitalizou a arte brasileira. “Por mais que tenham encontrado na caretice uma oposição, eles foram um vento novo que varreu tudo.”
A influência dos povos africanos também pode ser sentida na estrutura narrativa do musical, produção que se desenrola de forma não linear. É uma prática que segue a interpretação de mundo da cultura iorubá, povo para quem o tempo não é uma linha reta, mas uma espiral que entremeia passado, presente e futuro.
A jornada de Gil é conduzida pelo Tempo-Rei. O personagem mítico é vivido por Guga Barbosa e foi inspirado em uma música do artista. Ao longo da narrativa, é como se essa entidade fosse um cicerone que guia o público pela biografia do músico.
É uma trajetória em que Gil usou a sutileza da poesia para enfrentar a repressão da ditadura. Isso pode ser sentido em “Cálice”, parceria com Chico Buarque, que tematiza a censura por meio de jogos de linguagem.
Em 1973, os dois tentaram cantar a música durante um evento em São Paulo. Os artistas, no entanto, tiveram os microfones desligados por censores do regime militar, incidente retratado no musical.
“Para nós, artistas, é uma lição de como devemos estar sempre representando o país e o tempo por meio da arte”, diz Newton Moreno, dramaturgo que assina o texto da peça.
Ele decidiu começar a dramaturgia pelo exílio como um alerta para os perigos do autoritarismo, fenômeno que ganha força em diversos países mundo afora.
O dramaturgo também incluiu essa passagem para retratar o artista em um momento limítrofe. “Eu queria pegar um lugar de crise do Gil. E me pareceu que a crise ali era familiar, geográfica e política.”
De certa forma, os momentos de vulnerabilidade ajudam a revelar o homem que existe por trás do ícone. Esse foi um dos objetivos de Gui Ventura ao interpretar o artista.
Na hora de construir o personagem, ele se voltou às religiões de matriz africana, para as quais os deuses não são perfeitos e infalíveis. “Quando eu endeuso o Gil, é como uma divindade próxima do humano. Uma divindade que erra, que tem luz e sombra.”
Embora guarde semelhanças físicas com o artista, Ventura evitou uma performance baseada na imitação. “Fiquei pensando em como compor esse personagem sem ir para um lugar muito caricato ou burlesco”, afirma o ator. “A tentativa de me tornar totalmente o Gil poderia não ser a mais inteligente.”
Outro momento que aproxima o artista do público acontece quando o musical faz referência ao término de sua relação com Sandra Gadelha, com quem ele foi casado por pouco mais de uma década. O fim do casamento inspirou “Drão”, música que fala sobre a permanência do afeto mesmo após o fim do casamento.
Ventura diz se emocionar ao apresentar essa faixa por considerar que a canção expande o conceito de amor. “Ele expressa ali não o fim, mas a transformação do amor. É um amor que não é mesquinho.”
Para o ator, Gil também expandiu o conceito de musicalidade. “Ele tirou a nossa música de um lugar e pôs num lugar de infinitas possibilidades. Isso se mantém até hoje. Gostando ou não da obra de Gil, nós somos filhos dessa atitude.”
GIL – ANDAR COM FÉ
– Quando Qui. e sex., às 20h. Sáb., às 16h e às 20h. Dom., às 15h e às 19h. Até 11 de outubro
– Onde Teatro Santander – av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2.041, Vila Nova Conceição
– Preço A partir de R$ 50 em Sympla
– Classificação 12 anos
– Elenco Gui Ventura, Guga Barbosa e Henrique Zamith
– Direção Miguel Falabella
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