Pedindo ajuda pelo telhado
No terreno onde viviam há mais de 10 anos, havia duas casas: uma mais nova, construída com material resistente, e a mais antiga. A família perdeu tudo.
Quando a chuva começou, eles levaram todos os pertences para a residência que ficava em uma zona mais alta— que era a casa mais velha. Mas a água começou a subir rapidamente.
Os três passaram a noite no “forro” da casa, que fica em uma parte abaixo do telhado. No dia seguinte (1º de maio), a água subiu ainda mais, chegando à altura do primeiro andar. Foi quando eles precisam ir até o telhado.
Meu pai quebrou o telhado e ficou lá esperando algum helicóptero, mas não apareceu nenhum. A água não parava de subir e um galpão ao lado de casa começou a cair, tudo tremeu.
João Emiliano Salamoni
João deixou o isopor com a mãe e o pai dele tentou pegar um barco que apareceu boiando, mas não conseguiu e acabou ficando na água, tentando retornar para a casa.

Como sou cadeirante e tinha feito uma cirurgia recente na coluna, minha mãe teve de me puxar e fiquei agarrada com ela, enquanto tudo desabava. João Emiliano Salamoni
Os dois se afogaram diversas vezes quando a casa ruiu — João não conseguia se manter e, por isso, se agarrou a uma caixa de isopor.
A nossa única chance era conseguir apoio em um assoalho da casa que tinha subido. Meu pai estava tentando sair do meio do canal, mas não conseguiu. A água estava violenta.
João Emiliano Salamoni
Mãe e filho perceberam que, enquanto eram levados no sentido do rio, estavam perto da cidade de Taquari. “Tinha várias ondas altas no rio”, lembra.
A cidade de Cruzeiro do Sul fica ao lado do Rio Taquari, que transbordou durante as fortes chuvas. Mãe e filho foram arrastados até o município de Taquari, que fica a quase 60 km de distância.
Os dois, em algum momento, encontraram um local para ficar, com entulhos e pedaços de madeiras que se acumularam.
Minha mãe foi me puxando e fomos parar nesse lugar. Era água para todos os lados, ficamos ilhados, e a chuva não parava.
João Emiliano Salamoni
‘Apoiados em tampa de geladeira’

Elvira conseguiu encontrar a tampa de uma geladeira para usar como apoio para eles deitarem enquanto esperavam ajuda. Ao longo dos dias, eles comiam laranjas e nozes que encontraram dentro de um pacote no lugar.
João tinha acabado de operar a coluna e, por isso, não conseguia andar sem a ajuda de uma cadeira de rodas. Foi a mãe dele que conseguiu puxá-lo até o lugar em que ficaram.
Chegou um momento em que disse que não estava mais aguentando. Minha ferida na coluna começou a inflamar. Ela estava mais distante de mim para tentar pedir ajuda caso alguém passasse.
Combinei com ela que, caso a água subisse de novo –porque não parava de chover–, ela iria para cima da árvore e eu usaria o colete dela para me segurar.
João Emiliano Salamoni
Mas no quinto dia de espera, um homem que estava de barco encontrou os dois pedindo ajuda.
Ele estava com dois amigos, para saber o que tinha acontecido com a criação de gado deles. Minha mãe viu a lancha e começou a gritar. Um cachorro que estava com a gente também começou a latir. Eles salvaram nossas vidas.
João Emiliano Salamoni

Mãe com leptospirose
Mãe e filho ficaram internados por 10 dias, no Hospital São José, em Taquari. “Ainda estou conversando com o psicólogo do hospital. Além do trauma, tive a perda do meu pai. Ele estava com minha mãe há 23 anos. É uma tristeza.”
Elvira precisou voltar ao hospital, pois foi diagnosticada com leptospirose, infecção causada pela bactéria Leptospira interrogans e transmitida pela urina de ratos.


