Mangueira em punho e chapéu de boiadeiro, Divino Bispo Santiago, mais conhecido como Careca, enfrentava junto de bombeiros e membros da Força Nacional de Segurança o fogo que consumia a Fazenda São Bento, na qual trabalha como capataz desde que foi arrendada, há seis meses. O cenário corresponde com precisão ao descrito pelo pesquisador: em uma área extensa, a cerca de 6 quilômetros do rio Paraguai, se estende campos de um arbusto fibroso que queima, assim como o solo de turfa rico em matéria orgânica e onde o caminhar se torna mais difícil.
“O Pantanal já acabou. Vai ser uma crise muito grande com essa falta de peixes, do turismo de pesca, que é a base da região. Vai ter muita gente desempregada”, afirma Santiago. “Para quem, como eu, que nasceu e cresceu aqui, o Pantanal faz parte da gente, mas com essa destruição toda, nossos filhos e nossos netos nunca vão chegar a ver o Pantanal que nós vimos.”
O trator vem e volta da sede da fazenda, com um caminhão pipa a reboque, trazendo 2 mil litros de água que resfria um pouco as chamas e permite que os profissionais entrem com borrifadores e sopradores – estes sim, limpando o terreno e impedindo que o fogo avance. “Em chamas muito altas, ele chega com a mangueira, joga, diminui a intensidade da chama e, assim, a equipe que esta? em solo combate esse incêndio. Agora a estratégia é empurrar esse fogo em direção ao rio Paraguai, que é o melhor modo de extingui-lo”, explica o sargento Igor Vinicius Santos, que veio de Brasília para atuar em Corumbá.
A 180 quilômetros dali, na região do Nabileque, o fogo ameaça os trilhos da Linha Tronco da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que liga Bauru a Corumbá, é observado de perto pelo fazendeiro Carlos Davalo. Montado em um quadriciclo e com um pano amarrado no rosto para evitar a fumaça, ele vai orientando seus funcionários na tentativa de impedir que as chamas que destroem um palmeiral cheguem à sua propriedade.
“O Pantanal não é fácil, não. Tudo é muito: muito inseto, muita terra, muita água, muito fogo, mas é ajeitado e vamos trabalhando ele”, comenta pouco antes de correr para outro ponto. Após 12 horas de enfrentamento, Davolo, bombeiros, Força Nacional e trabalhadores das fazendas conseguiram conter o foco. “Mas de manhã já surgiu um novo mais abaixo”, lamenta.
E assim caminha em 2024 o Pantanal. Entre batalhas inglórias e reduções de danos, profissionais e pantaneiros tentam impedir um triste recorde que supere o registrado em 2020 e mostre que a terra das águas a cada dia que passa se torna a terra do fogo.


