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Brasil

Bioeconomia amazônica: o desafio de gerar renda e conservar a floresta

admin
Ultima atualização: 13/01/2025 às 08:19
Por admin
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11 leitura mínima
bioeconomia-amazonica:-o-desafio-de-gerar-renda-e-conservar-a-floresta
 

Cupuaçu, cumaru, taperebá, tucupi, bacuri e buriti. Do interior da floresta, produtos típicos da Amazônia são colhidos por mãos experientes de comunidades locais. Depois, são transportados por barqueiros entre rios sinuosos. Quando chegam a Belém, no Pará, se transformam em sucos, temperos, molhos, geleias, granolas, farinhas e farofas.

O ciclo de produção, que envolve diferentes pessoas, e termina na venda dos produtos das empresas Manioca e Amazonique, é um exemplo bem representativo da bioeconomia ou sociobioeconomia, modelo de negócio que alia a geração de renda, conservação da biodiversidade e valorização cultural.

Manaus (AM), 30/11/2024 - Paulo Reis, empreendedor, pioneiro da bioeconomia na Amazônia., co-fundador das empresas Manioca e a Amazonique, fala durante a TEDx Amazônia, no Salão Rio Solimões. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Paulo Reis e empreendedor e cofundador das empresas Manioca e a Amazonique – Tânia Rêgo/Agência Brasil

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“Temos um senso de propósito muito grande. É movido por um interesse genuíno de gerar impacto social. E também gerar inovação a partir desses ingredientes da Amazônia. É uma relação feita de forma muito direta entre empresas e comunidades de todos os tipos, normalmente povos tradicionais. Essas comunidades viram fornecedoras. E, a partir dessa relação de fornecimento de matéria-prima, a gente desenvolve assistência técnica, gera renda, cria uma relação de confiança de longo prazo”, explica Paulo Reis, cofundador da Manioca e Amazonique.

Natural de Belém, ele desistiu de seguir a carreira jurídica e optou por empreender em negócios que impactassem positivamente a sociedade e a natureza locais. A Manioca nasceu em 2014 com foco em produtos alimentícios gerados a partir da mandioca. Ela atinge mercados de 13 estados brasileiros e outros 12 países. A Amazonique, focada na produção de sucos de frutas amazônicas, foi criada em 2022 e, por enquanto, pode ser encontrada nas prateleiras da capital paraense.

“São cerca de 50 famílias e 11 cidades diferentes que nos fornecem as matérias-primas. E nós colaboramos com assistência técnica para eles, com contratos diretos, preços justos de longo prazo e também acompanhamos a preservação da área”, diz Reis.

Rio de Janeiro (RJ) 10/01/2025 -   Grupo a assobio associação de bioeconomia.  Foto: Guilherme Gomes/Divulgação

Associação dos Negócios de Sociobioeconomia da Amazônia (Assobio) tem como missão o desenvolvimento socioeconômico da região – Guilherme Gomes/Divulgação

O empreendedor é membro da Associação dos Negócios de Sociobioeconomia da Amazônia (Assobio), que tem como missão o desenvolvimento socioeconômico da região, priorizando a conservação do bioma e o bem-estar do povo. São 75 empresas associadas, mais de 600 empregos e faturamento acima de R$ 42 milhões. Cerca de 60% dos negócios são alimentícios, mas há outros setores como cosméticos, fármacos, acessórios e moda.

Juntas, as empresas compram aproximadamente 100 ingredientes diferentes da Amazônia, que vão além das principais cadeias econômicas da região, como o açaí, o cacau e a borracha. A Assobio entende que a escala ideal para a Amazônia é multiplicação de pequenas e médias iniciativas.

“A Amazônia está muito habituada a pensar sempre em projetos grandes, como se aqui fosse um lugar que tem muita terra para pouca gente. E como se a gente aqui precisasse sempre ter uma intervenção de grande escala vinda de fora. É muito mais saudável para a região que a gente pense na criação e desenvolvimento de vários pequenos e médios negócios. Não adianta virem para cá grandes negócios de uma forma agressiva, que possam prejudicar a biodiversidade, nossas tradições e o modo de vida que a gente tanto quer preservar”, defende Paulo Reis.

O posicionamento é corroborado por Valcleia dos Santos Lima, superintendente na Fundação Amazônia Sustentável (FAS), para quem é preciso priorizar a pluralidade no lugar da monocultura mecanizada.

“É importante que a gente enxergue esse ambiente da Amazônia como plural. E que não cabe, por exemplo, destruir toda uma biodiversidade para produzir um único produto, como soja, milho, arroz, ou até a pecuária. Você pode, a partir desse território tão diverso, extrair uma série de produtos. E não ficar em uma produção que não tem resultado para a população local, que gera poucos empregos. Para a Amazônia, esse tipo de negócio não é sustentável”, diz.

A especialista entende também que a bioeconomia é um modelo adequado para extrair as riquezas da floresta, sem precisar desmatá-la. Nesse caso, o conceito mais importante seria o de gerar renda a partir da conservação da Amazônia.

“Temos essa diferença entre preservação e conservação. Preservar é aquilo que você não pode tocar. A gente tem áreas e territórios na Amazônia que são áreas de preservação. E conservar é você usufruir aquilo de uma forma sustentável. É permitir que o que sobra da subsistência dos locais possa ser comercializado e gerar renda para eles, de maneira sustentável e responsável, explica Valcleia.

Rio de Janeiro (RJ) 10/01/2025 - Hambúrguer vegano de tucumã da empresa amazônia smartfood.  Foto: Guilherme Gomes/Divulgação

Hambúrguer vegano de tucumã – Paulo Reis/Arquivo Pessoal

Proteínas de açaí e tucumã

A economista e empreendedora Priscila Almeida nasceu em Minas Gerais, mas adotou o Amazonas como casa há 18 anos. Ela também é membro da Assobio e possui um negócio de biotecnologia aplicada em alimentos, a Smart Food. A empresa foi criada em 2016 e vende produtos veganos. Entre as proteínas alternativas oferecidas estão hambúrguer, linguiça e almôndega de açaí, e hambúrguer de tucumã.

Também são vendidos tucumã e açaí liofilizados, ou seja, desidratados em um processo que vai direto do estado sólido para o gasoso, sem passar pelo líquido. Segundo Priscila, são 100% naturais, sem aditivos e preservam os sabores e nutrientes da Floresta Amazônica. Além disso, 60% dos insumos são amazônicos de comunidades extrativistas.

Além do Amazonas, a empresa comercializa os produtos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Espírito Santo. E tem planos de chegar a mercados do exterior. Um dos entraves, neste momento, são os efeitos da crise climática, como as secas cada vez mais intensas na Amazônia.

“Nossos negócios foram afetados esse ano e provavelmente vão ser nos próximos. Houve impacto da seca no Tucumã, que é uma cadeia que a gente trabalha. A seca está gerando, em alguns casos, a esterilização das sementes. A gente teve dificuldades de conseguir sementes férteis para micropropagar. Eu vejo que a tendência é ser cada vez forte esse impacto. Isso pode ser contornado, desde que haja processos de regeneração, com plantio ou recuperação das plantas”, explica Priscila.

Rio de Janeiro (RJ) 10/01/2025 - Priscila Almeida empreendedora de bioeconomia  Foto: Guilherme Gomes/Divulgação

Priscila Almeida diz que a sociobioeconomia é a matriz econômica mais viável para minimizar impactos das mudanças climáticas – Guilherme Gomes/Divulgação

Para a empreendedora, a sociobioeconomia é a matriz econômica mais viável para minimizar os impactos das mudanças climáticas.

“Ela envolve mais mão de obra, diferente das tecnologias convencionais. Você consegue fazer uma maior distribuição de renda com os produtos oriundos da sociobioeconomia do que, por exemplo, uma startup de inovação. A startup favorece a escala em termos de recursos financeiro e capital, mas a mão de obra e a empregabilidade não chegam na mesma velocidade. Por isso, a sociobioeconomia, como uma matriz de desenvolvimento é uma das mais importantes para a Amazônia”, defende Priscila.

Moda ancestral

Foi a partir de experiências e aprendizados com comunidades tradicionais da floresta que a manauara Elijane Nogueira fundou a Yanciã, uma microempresa voltada para artigos artesanais de moda. Ela tem graduação em direito, com especialização em ciências criminais, mas decidiu fazer uma transição para área ambiental, trazendo a bagagem das ações e estudos nas questões de vulnerabilidade social.

“Iniciei essas pesquisas dentro da moda com responsabilidade socioambiental. E comecei a voltar o meu olhar para a minha região, ao refletir muito sobre as mudanças climáticas e como nós todos estávamos sendo afetados. Queria muito desenvolver uma cultura de moda a partir dos nossos territórios”, explica Elijane.

A marca Yanciã foi registrada em 2021, depois de anos de pesquisa para conectar a pauta ambiental com um negócio na moda. O primeiro espaço físico da empresa foi aberto em agosto de 2024, em um centro cultural chamado Casarão de Ideias.

Rio de Janeiro (RJ) 10/01/2025 - Elijan Nogueira empresária responsável pela empresa Yanciã   Foto: Elijan Nogueira/Arquivo Pessoal

Marca fundada pela manauara Elijan Nogueira é voltada para artigos artesanais de moda – Elijan Nogueira/Arquivo Pessoal

O negócio não é uma revenda de materiais amazônicos. Ela pega os produtos prontos em associações, que fazem a coleta e as modificações nas matérias-primas. O trabalho envolve pesquisa e troca de saberes com artesãs. Entre os materiais utilizados estão fibras de tucum e sementes de açaí. Elijane faz o processo de curadoria, selecionando e produzindo artesanatos que se transformam em coleções de moda.

“Parte desses materiais vem de saberes ancestrais, de comunidades indígenas que já os utilizavam para a própria subsistência. Eu fiz uma curadoria para entender um pouco dos materiais e de onde vinham. Quem eram as comunidades, as formas de coleta e de beneficiamento”, explica Elijane. “Tento honrar esses conhecimentos tradicionais das mulheres de povos tradicionais que, por muito tempo foram violentadas, marginalizadas e invisibilizadas pelo próprio mercado do artesanato. Que, muitas vezes, nem recebiam os créditos por esses trabalhos”.

Série sobre a Amazônia

A reportagem faz parte da série Em Defesa da Amazônia, que abre o ano da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a ser realizada em Belém, em novembro deste ano. Nas matérias publicadas na Agência Brasil, povos da Amazônia e aqueles diretamente engajados na defesa da floresta discutem os impactos das mudanças climáticas e respostas para lidar com elas.

*A equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024.

 
 
 

admin 13/01/2025 13/01/2025
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