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28/08/2026
A inteligência artificial pode acelerar a produção de conteúdo, ampliar a criatividade e automatizar tarefas, mas não substitui a responsabilidade humana. Este foi um dos principais pontos debatidos no segundo dia do 4º Congresso Nacional de Comunicadores do Ministério Público Brasileiro (Conacomp), realizado nesta quinta-feira, 27, em Palmas.
Os debates apontaram que a inteligência artificial impõe um desafio que vai além da adoção de novas ferramentas: preservar a confiança do cidadão nas instituições públicas. Nesse cenário, reputação e credibilidade se tornam ainda mais vulneráveis. A facilidade de produzir e disseminar conteúdos, inclusive com o uso de inteligência artificial, amplia o alcance de informações falsas, imagens manipuladas e mensagens capazes de comprometer a imagem de pessoas e instituições em poucos minutos.
IA exige governança e responsabilidade
Entre os palestrantes do segundo dia, o jornalista baiano André Curvello apresentou uma retrospectiva das transformações tecnológicas que alteraram a atividade jornalística e a velocidade de circulação das informações. A partir da própria trajetória profissional, iniciada antes da internet e das redes sociais, ele mostrou como ferramentas que antes pareciam revolucionárias deram lugar a um ambiente de produção e disseminação de conteúdo em tempo real.
Curvello chamou atenção para os impactos da inteligência artificial na comunicação, sobretudo diante da velocidade de produção e disseminação de conteúdos e dos riscos em situações de crise. “A comunicação, de uma maneira bem pragmática, está ligada à velocidade da tecnologia”, destacou.
O jornalista também alertou para os impactos da IA sobre a reputação de pessoas e instituições, diante da facilidade de criação e disseminação de conteúdos falsos ou ofensivos. Ao comparar diferentes momentos da história da comunicação, mostrou como uma informação que antes poderia levar dias para atravessar o país hoje alcança milhões de pessoas em poucos segundos por meio das plataformas digitais.
Durante a palestra, Curvello ainda propôs aos participantes uma reflexão sobre a identificação de conteúdos falsos e verdadeiros, com exemplos apresentados ao público.
Comunicação pública precisa de uma IA própria
A jornalista Vanessa Aguiar abordou outro aspecto central do debate: a necessidade de as instituições desenvolverem formas próprias e responsáveis de utilizar a inteligência artificial.
Para a especialista, o uso da tecnologia deve considerar documentos, valores, regras, histórico e linguagem de cada organização. Dessa forma, a IA pode atuar a partir de uma identidade institucional previamente estabelecida, em vez de produzir respostas genéricas com base apenas nas informações disponíveis na internet.
Vanessa Aguiar defendeu que a tecnologia pode ampliar a capacidade das equipes, mas não deve retirar dos profissionais a responsabilidade pelo conteúdo divulgado. “A IA descentralizou a produção, mas não descentralizou a responsabilidade”, afirmou.
Para a jornalista, a curadoria humana permanece indispensável. Cabe ao profissional definir o que será comunicado, para quem, com quais critérios e dentro de quais limites. A revisão também deve assegurar que o conteúdo respeite os valores e a missão da instituição.
Vanessa Aguiar apresentou possibilidades de uso da IA para ampliar a criatividade e proteger públicos vulneráveis, como a criação de personagens sintéticos para representar vítimas de violência sem expô-las diretamente.
Outro ponto destacado foi a transparência. Vanessa Aguiar apresentou formas de informar quando textos, imagens ou outros conteúdos tiveram auxílio de inteligência artificial, sempre com a identificação do responsável humano pela revisão e publicação. “Não é quem usa mais. É quem usa melhor”, resumiu, ao defender o desenvolvimento de competências para um uso mais consciente da tecnologia.
Tecnologia como ferramenta para resolver problemas
O jornalista e servidor do Senado Federal Tadeu Sposito apresentou experiências práticas de automação de processos na comunicação pública. Para ele, a inteligência artificial deve ser tratada como ferramenta, e não como solução autônoma para os problemas das instituições. “Ferramentas não são nem boas nem ruins. Bons e ruins são os usos que a gente faz delas”, afirmou.
Tadeu Sposito explicou que o primeiro passo para incorporar a IA é identificar o problema que precisa ser resolvido e o resultado esperado. A partir disso, a tecnologia pode reduzir tarefas repetitivas e liberar os profissionais para atividades que exigem análise e julgamento.
Entre os exemplos apresentados estão a automação da produção de conteúdos a partir de pronunciamentos parlamentares, a moderação de comentários em redes sociais e a organização do fluxo de produção para mídias sociais.
No Senado, segundo ele, sistemas automatizados já auxiliam na identificação e distribuição de demandas, na transformação de notícias em conteúdos para diferentes plataformas e na geração de audiodescrições. A revisão final, no entanto, permanece sob responsabilidade humana. “Revisão é a tarefa do ser humano”, destacou.
O jornalista também defendeu que soluções criadas individualmente pelos servidores não devem ficar restritas a quem as desenvolveu. Para ele, a inovação precisa ser incorporada aos processos institucionais, com padronização, registro e participação das áreas responsáveis.
Nas rodas de conversa com Gabriela Tamura e Marcelo Silva, profissionais de comunicação dos Ministérios Públicos de todo o país também discutiram os desafios da comunicação pública e as possibilidades de uso da IA para apoiar a produção de conteúdo, automatizar tarefas, ampliar a capacidade das equipes e estimular processos criativos.
Programação continua
Com o tema “Comunicação pública: inovação, governança e desafios na era da inteligência artificial”, o Conacomp continua nesta sexta-feira, 28, com mais uma rodada de atividades no MPTO. A programação do último dia mantém o foco na troca de experiências entre comunicadores de diferentes regiões e ramos do Ministério Público e inclui também uma visita técnica à estrutura de comunicação da instituição, oportunidade para compartilhar práticas desenvolvidas no Tocantins e conhecer soluções adotadas por outras unidades do país.
Texto: Lidiane Moreira/Dicom MPTO
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