Há mais do que quadras perfeitamente simétricas e planas com nomes de pássaros e tribos indígenas em Moema. Com a entrada em cena em 2018 de uma nova linha de metrô, a 5-Lilás, com direito a duas estações na avenida Ibirapuera, o bairro, verdadeiro sonho de consumo da classe média alta desde os tempos de João Ramalho e Anchieta, empina valorização.
Segundo a Loft, os imóveis de Moema valorizaram 5,9% na comparação entre os primeiros quadrimestres de 2024 e 2023. Houve ainda aumento de 8,1% no volume de imóveis vendidos, de acordo com a startup.
Mas foram com alterações da Lei de Zoneamento, as pregressas e as recentíssimas –estas da revisão de 2023, convertidas em lei no começo de 2024–, que o bairro passou a mostrar certa mudança de perfil, com a hegemonia dos imóveis de alto padrão para famílias baunilha a ser desafiada por produtos mais contemporâneos, como os estúdios para singles e forasteiros que chegam à cidade pelo vizinho aeroporto de Congonhas.
É o que aponta Gil Vasconcelos, diretora de incorporação da Kallas, construtora que ergueu na região produtos de uso misto (residencial e comercial), como o Moma Moema, que se utilizam dos andares de garagem do setor de alto padrão para montar estúdios —recurso usual em outros locais da cidade, como a Vila Madalena. O Moma tem 344 unidades, com apartamentos de 147 m² e 194 m² e estúdios de 24 m² a 30 m².
No caso das mudanças da revisão de 2023-24, um dos novos fronts de verticalização é trecho do lado par da avenida República do Líbano, agora ZEU (Zona Eixo de Transformação Urbana), com maior potencial construtivo do que as ZM (Zonas Mistas) e ZC (Zonas de Centralidade).
A “revisão da revisão” da lei, que teve sua segunda audiência pública na última terça-feira (18) na Câmara dos Vereadores e que ocorre para dirimir falhas de redação e incongruências no mapa da cidade, estabeleceu ainda que as novas obras em Moema sejam feitas sem rebaixamento do lençol freático, por características técnicas do solo na região.
Folha Mercado
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O subsolo da região pode ser delicado, mas é sobre a superfície que o bairro enleva. Com o parque Ibirapuera como atração e grande estrutura de atendimento de saúde, Moema conquistou um dos maiores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade.
O corretor Hilário Bacchini, da HGB Imóveis, vê um grande arco de interessados na região, das famílias aos jovens empreendedores, passando ainda por investidores e “aposentados ou pessoas perto da aposentadoria”. Aos atributos conhecidos de Moema, como a propalada qualidade de vida e “infraestrutura completa”, na definição do profissional, soma-se agora o “retorno seguro para investidores” por conta da “alta demanda e baixa vacância”.
Os saudosistas talvez tenham razão em suspirar pela Moema do Palace, a grande casa de shows das últimas décadas de São Paulo, e pelas veneráveis choperias alemãs que tão bem caracterizaram o bairro no século 20. Mas mesmo aí a região conseguiu perseverar. Na música, há o Bourbon Street, referência no blues, para ficar num único gênero. E na trifeta chucrute-eisbein-chope, o Windhuk, mais antigo restaurante alemão da cidade, segue forte em plena Moema-Índios.


